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Um olhar sobre a Psicose

Tendo nascido em Alvalade – um bairro de lisboa – cedo contatei com doentes do Hospital Júlio de Matos, senhores estranhos de aspeto descuidado vagueando pelas ruas. Alguns evocavam em mim temor e sobressalto. Mas este mistério humano da loucura fascinava-me. 

Anos mais tarde integrei uma equipa comunitária que, através de atividades culturais – Teatro, Música, Artes Plásticas, Literatura, Visitas Culturais – procurava apoiar pessoas com um diagnóstico de esquizofrenia, criando contextos que as estimulassem a sentirem-se vivas e a dar sentido às suas vidas. Desde cedo senti que era necessário estar disponível como homem para criar relações com os utentes. Interessar-me pelas suas histórias de vida, respeitar as suas dificuldades, escutar a forma como têm ultrapassado os obstáculos. O olhar que temos face a um sujeito psicótico é de grande importância. A minha experiência tem-me mostrado como é importante termos um olhar direto, não intrusivo, mas disponível e acolhedor. Sem receios. Um olhar que exprima algo benigno. Como dissesse, “Estou disponível e curioso para viajar consigo.”  

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Sem-abrigo: evitemos slogans!

O discurso acerca dos sem-abrigo tende a radicalizar-se à volta do eixo factores individuais vs estruturais. Ou, se quisermos, o que está dentro ou fora do indivíduo.

Por exemplo, podemos ouvir que a problemática sem-abrigo tem a ver com a doença mental e consumos. Mas também podemos ouvir que é sobretudo um problema de pobreza e de falta de casa. 

Esta discussão é importante e tem consequências. Um dos perigos é poder conduzir a uma atribuição errónea de responsabilidade. Por exemplo, tomar como patologia individual, algo que é da ordem da crise colectiva.  Ou vice-versa. 

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PORTO _ Cidade das Pontes

O Porto, ao norte
Onde fiquei
Onde tantas e tantas vezes

Regressei
Atravessando pontes
Bem altas sobre as escarpas
Sobre o Douro prateado

Cruzado
Por cinco pontes de um só arco
De lado a lado, desenhado,
Firme, elegante, bem lançado
Dois de ferro rendilhado
Dois de cimento armado.
E ao fundo, o poente iluminado,

A Foz discreta sobre o Oceano
A Barra de travessia incerta
Lá dentro, o Porto
Sóbrio e granítico, esconde
Íntimos jardins românticos

Com bancos de pedra e lagos
Floridos com belas magnólias
Japoneiras com camélias
Flores efémeras, com pétalas
Tapetam os seus relvados.
No Porto, sóbrio e granítico
Onde fiquei
Com as belas magnólias
Me encantei.
Na certeza de que as pontes
Não apenas de regresso
Me dariam também acesso

A todo o Mundo!

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O Inimigo

“Perante o flagelo… perante o escândalo da morte anunciada, iminente e cega, as comunidades têm uma tendência irreprimível para se unir no medo…”  Bernard-Henri Levy (2020)

Naquela manhã de final de Agosto, dirigi-me à parafarmácia habitual, na tentativa de, pela terceira vez, furar as orelhas das minhas filhas (nestas tenras idades, mal se tiram os brincos, logo as orelhas repõem o que falta!). Perante o comentário firme e inamovível da farmacêutica – “já não furamos as orelhas” -, resolvi ingenuamente (ou por teimosia, ou curiosidade) perguntar porquê, e logo ela, de olhar indignado e ar de “beata”, me responde: “Não podemos, por tudo o que está a acontecer no mundo…” 

Aquele comentário irritou-me, pelo tom moralista, raiado do politicamente correto, semelhante ao que se sente quando se come uma sardinha em frente a um Vegan…
Senti que a minha atitude mais despreocupada punha em causa uma certa “tranquilidade” que o “terrível que está a acontecer no mundo” parecia dar àquela pessoa… Um sentido? Uma compreensão de todos os males? Um inimigo designado?

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Ser Velho neste Novo Tempo

A pandemia deixou-nos menos capazes de exprimir emoções, mais fechados sobre nós próprios? O medo subiu de tom, ao vermos um vírus mudar drasticamente as nossas vidas.

Ao mesmo tempo, penso que a distância e o isolamento social nos confrontaram com a saudade e a necessidade dos outros. De os ver, tocar, abraçar de lhes dizer a importância que têm para nós e o que sentimos por eles.

Todas as idades enfrentaram desafios, mas foram os idosos quem mais foi violentado psiquicamente, ao sofreram com o isolamento e ao verem discutido o valor da sua vida. A ideia de haver vidas que valem mais do que outras é indescritível. As notícias trouxeram-nos esta questão, que angustiou todos, pelo medo do que pudesse acontecer com cada um de nós, os que somos velhos e com cada um de nós, sobre os nossos velhos. Todos temos pais, tios, avós, e somente a ideia de os perder deixa-nos inexoravelmente mais pobres.

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Setembro

“Summer has come and passed
The innocent can never last
Wake me up when September ends”

Billie Joe Armstrong dos “Green Day”

Em setembro, muitas pessoas vivem o fim das férias com tristeza. E mesmo nesta época, em que as férias sofreram o impacto da pandemia, com todas as ansiedades e restrições associadas, isso também aconteceu. 

Quem me falou, em primeiro lugar, desta tristeza foi uma pessoa que não saiu do seu local habitual de vida, portanto não está a regressar, com pena, de lugares fantásticos. O que o entristece, no setembro do recomeço, é a experiência da despedida.

Do que nos despedimos, no final do Verão?

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História para crianças (e não só)

Um dos momentos mais divertidos do meu dia é contar histórias aos meus filhos de 2 e 4 anos, pequenos super-heróis à procura de sonhos em tempos de pandemia. Uma destas histórias que me encantou foi “ O coelho que sabia ouvir” de Cori Doerrfeld, finalista do Goodreads Choice Awards. É a história do Tito, um menino que se encontra com um coelho silencioso, que sabe “ouvir” todas as suas palavras e emoções. Com a sua presença silenciosa, o coelho acompanha o Tito na superação da perda até ao reencontro da esperança e da reparação. 

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Um Bem de primeira necessidade

That is part of the beauty of all literature. You discover that your longings are universal longings, that you’re not lonely and isolated from anyone. You belong.

F. Scott Fitzgerald

Preâmbulo 

De entre as medidas restritivas impostas durante o estado de emergência incluiu-se a suspensão do comércio a retalho, com excepção das lojas de bens de primeira necessidade. A ministra considerou os livros como um bem de primeira necessidade e as livrarias puderam permanecer abertas desde que vedado o acesso dos clientes ao seu interior, com venda dos produtos à porta, ao postigo, ou entrega em casa. Considerou também a ministra que não existe o costume de vender livros à porta das livrarias e ainda menos por um postigo. A 4 de Maio,  após 45 dias de estado de emergência, as livrarias reabrem. 

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A Máscara

“A epidemia é um fenómeno social tanto quanto médico” Bernard-Henri Levy (2020)

“When reality is surreal, only fiction can make sense of it” Decameron project, New York Times Magazine (2020)

Era uma vez uma máscara cirúrgica que se sentia desvalorizada por estar confinada nas bocas-narizes dos cirurgiões e dentistas: “Como é possível”, pensava, “que neste mundo cada vez mais globalizado, eu esteja restrita aos médicos, e que as pessoas só me olhem quando estão deitadas na marquesa”? Então, interrogou-se sobre quem a poderia ajudar a espalhar-se no mundo, e lembrou-se dos vírus: aqueles seres insignificantes, que nem sequer pertencem ao mundo dos vivos, mas que descobriram uma maneira extraordinária de utilizarem as células vivas para se multiplicarem. 

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Aquele Abraço

Após o golpe de Estado em 1964, o Brasil passou a viver tempos especialmente difíceis. Uma dessa ocasiões particulares deu-se em 1968 com o Ato Institucional nº 5. Promulgado pelo governo militar primava pela aplicação de restrições, nomeadamente no seio do movimento artístico com a censura prévia de música, cinema, teatro e televisão, por subversão moral ou dos bons costumes. 

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