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A polissemia do feminino: “Paula Rego – Histórias e Segredos”

Paula Rego (PR) foi a mulher-artista escolhida como âncora e simultaneamente gatilho para uma mesa no Congresso da IPA sobre o Feminino, em Londres, em Julho de 2019. Será visualizado o documentário realizado pelo seu filho Nick Willing, cujo título “histórias e segredos”, condensa a mestria genial de PR ao desenhar/pintar histórias que revelam/escondem segredos. E sabendo que todas as histórias contém segredos e qualquer narrativa é uma ficção, os seus quadros mostram espantosas e inquietantes “narrativas figuradas” do feminino.

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Je t’invite chez moi

Paris recebeu-nos no 79º Congresso de Psicanálise de Língua Francesa subordinado ao tema da bissexualidade psíquica, sexualidades e géneros. Trata-se de um congresso organizado pela SPP (Société Psychanalytique de Paris) e APF ( Association Psychanalytique de France) com participação das várias sociedades que compõem a CPLF. 

O congresso centra-se na apresentação e discussão de dois “rapports”: “La bisexualité, l’inceste et la mort” realizado por François Richard (SPP) e “Ombres et lumières de la bisexualité” realizado por Jean-Michel Levy. Estes foram objecto de estudo prévio e reflexão nas várias sociedades. Ainda, em espaço de atelier, é relançada a discussão dos mesmos em pequeno grupo. 

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Observação da Relação Mãe-Bebé na Família: o Método Esther Bick

Em 1948, o método de observação de Esther Bick (1964) foi introduzido na formação de psicoterapeutas e de psicanalistas com o objetivo de desenvolver a função analítica dos mesmos. 

É um modelo tripartido que consiste em: observar uma díada mãe-bebé, durante uma hora, semanalmente, em casa de uma família razoavelmente estruturada; anotar à posteriori tudo o que foi observado fora e dentro de si mesmo; apresentar e discutir o registo no grupo do seminário de supervisão. 

Os seus três vértices assentam no paradigma intersubjetivo, relacional e potencial: na relação mãe-(pai)-bebé na família; na relação observador-família e na relação observador-grupo/supervisor. 

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After life

“After Life” (Netflix, 6 episódios), por Ricky Gervais, aborda a dor e a alegria, a esperança, a fraqueza tornada força, e o poder reparador e transformador da relação com o outro. Questiona, de forma brutal, qual o lugar do humano. 

“Vida depois da Morte” fala da ressuscitação emocional de um homem (Tony) em depressão após a morte da sua mulher com cancro, da sua dor intolerável, e do morrer por dentro… com humor desconcertante.

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Cowap – O corpo feminino da Psicanálise

O Women and Psychoanalysis Comitee (COWAP) faz parte dos comités da IPA e é um dos mais antigos e mais dinâmicos. Criado em 1998 com o intuito de explorar os temas ligados às mulheres, em 2001 ampliou o seu campo, estendendo-se a todos os aspetos do masculino, do feminino e da relação entre eles.

O grupo procura não só um questionamento e elaboração de alguns pontos da teoria psicanalítica e sua consequente revisão e aplicação na prática clínica, mas também a sua aplicação no corpo social.

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Finalmente a intuição sai à rua

Quando vamos investigar o conceito de intuição na literatura psicanalítica rapidamente nos encontramos no deserto. Isto é, Freud (1933) exclui a intuição da sua metapsicologia, referindo: “Do ponto de vista do método, a filosofia afasta-se híper-estimando o valor cognitivo das nossas operações lógicas, admitindo outras fontes de conhecimento, tais como por exemplo a intuição”. Mas Freud não excluiu a intuição do seu modo de pensar referindo em “Psicanálise e teoria da libido” (1923) que o médico analista se comporta de maneira mais apropriada se ele se abandona a ele próprio,   nada quer fixar na sua memória e  capta o inconsciente do paciente com o seu próprio inconsciente. 

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Os fantasmas bons

“I was walking down the road with two friends when the sun set; suddenly, the sky turned as red as blood. I stopped and leaned against the fence, feeling unspeakably tired. Tongues of fire and blood stretched over the bluish black fjord. My friends went on walking, while I lagged behind, shivering with fear. Then I heard the enormous, infinite scream of nature”

– Edvard Munch, O grito

Nos últimos meses perdi três amigos, a minha querida cadela e dois queridos humanos. Como noutros momentos, estou diante do que fazer com o que (me) aconteceu. Conheço o lugar, mas é sempre a primeira vez.  Como um bicho de conta que se encolhe e se alonga, em movimentos vagarosos, continuo a responder à realidade que diariamente me chama, mas peço-lhe que tolere com paciência o momento do recolhimento para que não tenha de sair deste lugar tão depressa. Sei, lá no fundo, que esse momento virá, mas por enquanto quero adiá-lo. O perpétuo movimento do que gira e avança traz-me tormenta e irritação. Como pode o mundo esquecer tão depressa? Estou num lugar do meio. Preciso de puxar o horizonte para trás até ao exacto momento onde o deixámos ontem, lembrar o rosto, as expressões, os traços, os gestos, as palavras, as coisas pequenas, para ficar mais um pouco com quem partiu. Vivo na carne a travessia do exterior para o interior. Sinto-me a edificar a casa interna onde o outro permanecerá comigo em mim e quero dedicar-lhe todo o vagar e atenção. Receio que se percam detalhes pelo caminho. Tenho medo de esquecer. Quero lembrar. Ouço-me a dizer os seus nomes vezes sem conta como que a trazê-los de novo à vida. Preciso sentir o meu corpo em contacto e a ausência a trazer lágrimas. Não quero que me ofereçam lenços nem palavras, nem que me consolem. Quero ficar perto do grito e do momento do desabamento. Quero ser habitada por fantasmas e peço à noite e ao sonho que os tragam. São fantasmas bons. Quero dar-lhes morada, registá-los, escrevê-los.

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“A Liberdade, sim, a liberdade!”

Em 2017 iniciámos a representação IPSO (International Psychoanalitic Studies Organization) em Portugal, na Sociedade Portuguesa de Psicanálise.

Na época, acabados de chegar ao terceiro ano de formação teórica, embarcámos num projeto, do qual, apenas tínhamos tido contacto, como participantes. A filosofia que havíamos, até então assistido, era de uma leveza inspiradora. Deste modo, o facto de termos tido o privilégio de passar um dia a desenvolver trabalho, com o Howard Levine, na apresentação de trabalho clínicos, discussão de casos em supervisão. Assim como, posteriormente, assistir a supervisão clínica de Leopold Nosek e viver o intercâmbio internacional no Encontro IPSO em Lisboa (entre outros bons momentos). Foi algo que, por ter sido experienciado tão intensamente e com um imenso proveito para a nossa formação como psicanalistas, como se, de janelas a abrir de par em par, vislumbrando sempre novas paisagens, que nos fez iniciar um novo projeto, dando continuidade ao anterior…

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Sexdução na TV – o eleito, o escolhido e o impostor

Os reality shows banalizaram-se, isso parece certo. Por vezes conseguem revelar um quê de criatividade surpreende, mesmo que algo degrante, polémico ou incomodativo.

Um pouco como a pornografia, encoberta em aparente crítica desvalorizante, conseguem conter um poder atractivo manifesto nas audiências e visualizações ou nas discussões que suscitam.

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Post-it: BRINCAR

A criança não tem à sua disposição a linguagem como o adulto, é através do brincar que ela pode por um lado, expressar as suas angústias e por outro lado, expandir a sua criatividade. 

No desenvolvimento da criança o brincar precede o desenho e o discurso, mesmo se o brincar é acompanhado de vocalizações. Uma criança que não brinca está doente e pode evoluir para situações em que não consegue fazer amigos, quer ser o centro das atenções pelo desejo incessante de se sentir interessante, reage com raiva, é tirânica porque quer que todos os seus desejos sejam realizados, etc. 

Diz-nos Donald Winnicott (1971): “Se a criança não pode brincar, é preciso fazer qualquer coisa para que essa criança possa começar a brincar”.

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