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As máscaras invisíveis das redes sociais

Em Março começámos a usar máscaras que fazem parte desta nova vida trazida pelo vírus. Há quem afirme termos ficado privados das expressões faciais eloquentes de uma certa emocionalidade. Para as crianças pode ainda ser mais complicado, pois, dependendo da idade não têm ainda um mapa interno representativo das emoções.

Para os adultos o olhar é suficientemente dizente e mesmo tendo perdido alguns dos indicadores de expressão podemos ainda ter o tom de voz, postura corporal entre outros.

E as máscaras anteriores ao Covid? Noutro dia uma paciente dizia-me que depois do período de confinamento, começou a sair indo a alguns jantares com amigos. Pareceram-lhe pobres alguns destes encontros. As máscaras invisíveis são as que colocam as pessoas em modo defensivo, fechadas atrás de rostos impassíveis e escudando-se a uma partilha emocional. Dizia ela: “Fala-se de um tudo que é nada porque nos defendemos da intimidade”. Fiquei a pensar no que ela disse. Estamos assim ou fomos sempre assim? Pensei nas redes sociais como o Facebook, Instagram, YouTube e em como elas nos despem em tantos sentidos. Há qualquer coisa de errado quando escolhemos, preferencialmente, estes meios para comunicarmos. 

Partilhamos a casa onde vivemos, o local onde trabalhamos, sítios onde vamos, roupas que vestimos, livros que lemos, os filmes, os aniversários, as viagens, a comida, os amores, os ódios, tristezas, é uma lista sem fim, esta…

Agora façamos o exercício de pensar se estes temas fazem parte das nossas relações reais e quantas destas pessoas são realmente nossas amigas. A quantos destes aniversários fomos, quantos destes livros discutimos, quantas destas refeições partilhámos e a quantos destes “amigos” virtuais telefonámos ou nos encontrámos para conversar.

Estamos claramente a viver uma vida online exuberante e outra real, em que estamos mais virados para dentro? A vida que vivemos não permite filtros, escolha de melhores ângulos, e apresentação apenas do que nos enaltece perante os outros. A primeira parece mais perto do Eu ideal recuperando o nosso narcisismo infantil e a omnipotência a ele associada.

No Instagram temos imagens perfeitas. O álbum ideal refletindo uma realidade ideal. Somos modelos, fotógrafos, jornalistas, é só escolher. As “selfies”, por exemplo, como meio de transmitir uma imagem cristalizada, idealizada e retocada até ao milímetro. Mas a imagem é nossa e é no limite para nós próprios. Há uma máscara sobre o nosso real self. Estaremos a construir uma nova imagem especular, construída sobre o número de “likes” que recebemos? Aquela representação de felicidade e perfeição construída, é em alguns casos assustadora. Há neste momento cirurgiões plásticos a serem solicitados para recriarem a imagem das fotos publicadas.

Mas vamos mais atrás. Vamos pensar nos telemóveis e em como em alguns anos, também eles se tornaram em obstáculos/máscaras que impedem a comunicação. Como vemos famílias inteiras, grupos de amigos de todas as idades entre outros, presos num ecrã e num mundo a(relacional). Preferimos o que um objeto “inteligente” nos oferece, pois com ele não corremos riscos, não temos ansiedade, nem qualquer dificuldade porque acreditamos que o controlo é nosso, na íntegra. Não é, e se dúvidas houvesse, o recente documentário da Netflix – “O dilema das redes sociais” – é bastante esclarecedor. A frase, do início, de Sófocles é esmagadora: “Nada imenso entra na vida dos mortais sem uma maldição.”  

Neste ano de 2020 em que a pandemia trouxe o consequente confinamento e distanciamento social, muito se falou sobre a dor da impossibilidade de abraçar, tocar e beijar quem gostamos. Acontecia assim tao facilmente esta expressão afetiva? Para muitos o toque como expressão de afeto foi-se esboroando e até a palavra como signo linguístico, de uma riqueza imensa, foi substituída muitas vezes por emojis, que traduzem emoções como alegria, tristeza, raiva, ou expressões afetivas como beijos, abraços, sorrisos. Tudo isto na comunicação por telemóveis e através de aplicações como Messenger, WhatsApp, entre outras.

Será que despimos o nosso Self e o filtrámos e retocámos para emoldurar no mundo das redes sociais, empobrecendo-nos, mas tentando um brilho narcísico? Corremos o risco de estar progressivamente a desinvestir a nossa vida de emoções, relações, fantasia, criatividade essas sim ricas e verdadeiramente humanas?

Talvez acabar este texto com uma frase de Fernando Pessoa que faz aqui sentido:

“Uma das formas de saúde é a doença. Um homem perfeito, se existisse seria o ser mais anormal que se poderia encontrar”

Imagem: Domenic Bahmann