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Alface ou o escritor sem mestre

A editora Maldoror Livros iniciou a reedição da obra literária de Alface, na passagem dos 10 anos da sua morte. Depois de Cuidado com os Rapazes dá agora à estampa o livro de ensaios de Teresa Carvalho Levantar as Saias ao Diabo; livro este que se constitui como introdução amorável à obra do autor. (Tire-se o chapéu!)

Alface é um grande escritor.

A sua escrita inventiva, céptica e animada, mapeou como poucas o fastio português.

Estilista veloz, conjugou a literatura com uma coragem libertária de pensar e viver.

Alface é autor, além do Cuidado, do livro de contos O Fim das Bichas, do romance Cá Vai Lisboa e do conjunto de cinco histórias “juvenis” agrupadas sob o título Uma Família sem Mestre. Em parceria com Manuel da Silva Ramos escreveu a trilogia Tuga, atletismo subversivo sobre a pátria que ri, sobre a pátria que chora.

Este corpus é exemplo maior do esplendor de uma literatura longínqua do esquema académico e do reconhecimento pequeno-burguês.

Por detrás das suas sete dioptrias Alface topava a nossa lusa alma de barata, com pessimismo, ironia e superior inteligência, sem nunca desvirtuar, no acto da escrita, a liberdade livre que considerava ser a sua essência e justificação.

E só não faz falta à literatura portuguesa porque escreveu numa luminosidade inconveniente, sem prosa algaliada a atravancar a loja.

João Carlos Alfacinha da Silva (Alface) possuía um humor swiftiano, desconcertante e lúcido e aristocrático.

Dançava.

Tinha uma escuta delicada, disponível. Habitava-o uma humanidade que a inteligência não destruía.

No Lido, num Carnaval em Veneza, ele é um nómada fixo com o seu chapéu de Balanzone e não se pasmou face ao Adriático, a Visconti, a Casanova. Nada de ópera ou de grandes filosofias: ver o mundo de cima de um vaporetto bastava-lhe.

Na súbita noite de 1 de março de 2007 o tempo era afável e caloroso quando o Alface morreu, tornando duráveis, em raio trágico, os versos de Salvatore Quasimodo: A vida é apenas um jogo de sangue/onde a morte está em flor.

Nesta grande época em que se lêem os horários exactos é preciso ter cuidado com o Alface. Ter cuidado quer dizer que a sua singularíssima obra não condiz com o tempo presente que forclui o que não tem valor, isto é: a arte poética.

A escrita imaginante de Alface encosta-nos à parede nesta arena (os mercados) onde assistimos à naturalização do discurso e ao declínio da sublimação.

O livro agora publicado de Teresa Carvalho reúne um conjunto electivo e sagaz de ensaios em volta da sua obra. É um contributo intenso contra a mesmidade e a anomia da crítica que exterminam o irrealizável, o impossível, o inconcebível.

No mundo onde viaja em contramão, ao comando de um Starvox, o rapaz altíssimo ri-se, agora, desta terra económica, metonímica.

Sem tempo e sem coisas, tudo voltou a ser oceânico, de novo.