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A vida em tempos de Corona II

”C’est ainsi qu’un sentiment de la séparation d’avec un être aimé devint soudain, dès les premières semaines, celui de tout un peuple.”  Albert Camus, “A Peste”.

Como pode um pequeno bicho abalar um mundo inteiro?

A vida ficou suspensa. Veio a crise, o medo e as medidas de contenção, e tivemos que reinventar a vida em poucos dias…

Mas a onda de estranheza ainda paira no ar… 

Em situações de angústia o ser humano recorre a defesas psíquicas para conseguir lidar com a ansiedade extrema: inicialmente, uns procuraram negar a realidade, insistindo em fazer a sua vida normal, continuando a encontrarem-se nos cafés e a almoçar em restaurantes, a beber uns copos com os amigos, apesar das recomendações das autoridades de saúde para evitarem os contactos sociais. 

Outros, pelo contrário, ativaram cenários catastróficos e tomaram medidas radicais de proteção: muda de roupa várias vezes por dia, banhos consecutivos, desinfeção da casa de cima abaixo; algumas pessoas não permitiam sequer aos filhos espreitar para fora da janela, não fosse o bicho andar a voar por aí. 

Outros recorrem ao sentido de humor, talvez a melhor arma para a angústia, aquela que, sem negar a realidade, cria um espaço de ilusão, de transformação e criatividade (Winnicott), de brincadeira com a vida, e nos dá um sentimento de pertença à humanidade: um DJ faz música nos bicos do fogão da cozinha

A ansiedade é uma defesa universal que nos prepara para lidar com situações de perigo, mas que em excesso se torna paralisante, e deforma a realidade, como vemos tantas vezes nas fobias. O sentido de humor, que envolve uma comunicação afetiva, tem esta particularidade de limar as arestas da ansiedade, como a mãe que com um sorriso brinca com o filho assustado com um bicho… 

E depois temos a criatividade, a capacidade de transformar, de criar coisas novas, que surge para lidar com a dor (Bion) e que tem sido posta ao serviço desta crise: quando faltam as máscaras para sair à rua põe-se um penso higiénico que andava perdido lá em casa; inventam-se sambas e poemas online. Vai ficar tudo bem!

De quarentena reinventa-se a vida. Com as escolas fechadas, os professores reorganizam-se e enviam tarefas aos alunos, por vezes com sugestões de desafios criativos: “tira uma fotografia da tua janela para os outros adivinharem o andar onde vives”; “escreve uma história sobre um monstro, mascara-te e faz um vídeo para mandar aos outros”. Tudo regado com muita partilha…

Noto as crianças, ao contrário dos adultos, mais tranquilas do que habitualmente. Talvez porque recolhidas da agitação habitual das inúmeras atividades quotidianas e com mais tempo de família? Ao contrário dos adolescentes que, em vias de construção identitária, precisam do grupo, de estar física e corporalmente com os pares. Um adolescente entristecido dizia aos pais: “Gosto muito de vocês, mas preciso de estar com os meus amigos…”

A partilha, a solidariedade, a ligação, é talvez a melhor arma para lidar com o perigo… E das coisas mais bonitas e comoventes a que tenho assistido: a começar pela arma paradoxal que possuímos contra o vírus – “afaste-se dos outros para os proteger”, até a todo o movimento de médicos, enfermeiros, políticos, juntos a lutar para que o barco não se afunde. E toda a partilha nas redes sociais, onde o “share” ganha verdadeiro conteúdo… 

Resta saber se os dirigentes políticos e económicos vão saber unir-se e tornar esta crise uma oportunidade de para nos tornarmos mais fortes…

Estaremos talvez perante uma disrupção social numa sociedade do século. XXI, que não viveu guerras ou pandemias, que se habituou aos bens fáceis e rápidos, a uma vida de excessos, consumista, e individualista – aquela que o filósofo sul coreano Byung-Chul Han chamou de “paradigma neuronal”: uma luta sem limites pelo sucesso individual, e responsável pela depressão, hiperatividades e burnout.

Subitamente retorna o “paradigma imunológico” (das epidemias e guerras do sec. XX), o inimigo existe fora de nós, a vida fica suspensa enquanto lutamos em conjunto, separados em bunkers domiciliários, mas unidos, como mostram os comoventes cânticos em Itália… Juntos cantamos, porque “quem canta seu mal espanta”…

De quarentena, aprendemos a viver de outra forma: possivelmente uns irão aprimorar os dotes culinários, outros perceberão que conseguem estar com os filhos dentro de casa, sem precisarem de inúmeras atividades externas para os entreterem; outros conseguirão pela primeira vez escutar os pardais e as rolas da janela, e outros vão finalmente descobrir que são capazes de estar sozinhos…

Pergunto-me se esta não será uma crise de ensaio, que vai passar, deixando marcas na economia, e obrigando a sociedade as reinventar-se… será talvez a primeira de outras que estão por vir… as catástrofes das alterações climáticas? O que podemos aprender com esta crise?