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A sedução pelo populismo radical: ascensão da extrema-direita na Europa

Nos indivíduos, a loucura é algo raro – mas nos grupos, nos partidos, nos povos, nas épocas, é regra.

                                                                                                                                                         Nietzsche

Sabemos através da história que acontecimentos extraordinários, como graves crises económicas, guerras, catástrofes naturais e outros eventos extremos, são o caldo de cultivo para o florescer do fanatismo e de ideologias extremistas. Quando o tecido social é rasgado por eventos traumáticos, quando se rompe a barreira de contacto do inconsciente colectivo, as forças inconscientes podem irromper e extravasar a capacidade de contenção e de pensar de grande parte de uma nação, deixando um lastro de destruição. Muito antes da crise mundial causada pela actual pandemia, já o mundo sofria de sintomas preocupantes do ressurgimento do populismo de extrema-direita.

A extrema-direita, os gulags, o genocídio nazi, o Daesh e outros grupos terroristas, comungam de características matriciais como a intolerância à alteridade, a desumanização, o ataque à liberdade, os seus ideais justificam a violência. Todos rejeitam a igualdade humana fundamental.

O conceito de populismo não é unânime, este parece atravessar todo o espectro ideológico. A sua natureza maleável e porosa, parece estar mais relacionada com a relação simbiótica que se estabelece entre o líder carismático e os seus seguidores, sem a mediação das instituições e dos partidos políticos. O populismo radical semeia adeptos na terra deserta provocada pela perda da confiança nas instituições democráticas, especialmente em momentos de crise. O seu discurso é anti-elitista, considera a elite política e intelectual “corrupta”; anti-emigração e anti-pluralista. A sua retórica é autoritária e ultra-nacionalista, apelando ao tribalismo das massas.

O líder populista é alguém suficientemente narcisista, autoritário, manipulador e carismático, para convencer as massas de que tempos extraordinários, exigem medidas excepcionais. Segundo Bion (1948), os pressupostos básicos agem como o cimento inconsciente que une o grupo; todos os pressupostos básicos têm um líder, quer seja uma pessoa, ideia ou objeto. No pressuposto básico de dependência, quando o grupo se desenvolve espontaneamente, há uma tendência a escolher o membro mais doente do grupo como líder. 

A crise financeira que atingiu a zona euro em 2011 e a forma como a UE lidou com a crise, ao impor medidas severas de austeridade, teve consequências sociais dramáticas. Os atentados terroristas na Europa e a guerra civil na Síria, com milhões de refugiados a fugirem da guerra e da fome, criaram a tempestade perfeita para o ressurgimento da extrema-direita populista na Europa. 

A crise dos refugiados foi aproveitada, pela extrema-direita, para explorar o terror e tentar criar uma angústia identitária nos europeus, ao transformar seres humanos aterrorizados pela guerra em invasores terroristas, nas redes sociais. A disseminação da mentira, permite-lhes abalar, retorcer e substituir a realidade. Uma velha estratégia com um novo meio, capaz de levar a mentira a níveis exponenciais. Se como sociedade não soubermos o que é verdadeiro, não podemos confiar uns nos outros para lutar contra aqueles que pretendem manipular-nos. 

A extrema-direita populista pretende o regresso a uma Europa dividida em nações fechadas sobre si mesmas, com base num conceito chauvinista, homogéneo e primário de quem pertence ao povo. Esta visão enfraquece a Europa e coloca-a em risco de repetir o seu passado traumático, sem memória da sua história recente, que transformou milhões europeus em exilados e migrantes que fugiam da fome e da guerra.

Embora a actual pandemia tenha posto em evidência a incapacidade de alguns governos populistas radicais, não tenhamos ilusões. As suas consequências sócio-económicas serão o terreno fértil para a extrema-direita europeia. Em Portugal, já sopram estes ventos desventurados. Ignorar ou subestimar a sua retórica xenófoba, ultra-nacionalista e anti-minorias, não parece ser uma boa estratégia, pelo contrário, pode criar uma normalização da desumanidade. 

Antes de qualquer adjetivo, somos todos humanos, e a nossa compreensão dos outros seres humanos é integra e profunda quando se estabelece sobre a matriz da nossa humanidade. A cultura de uma nação é tecida ao longo da sua história, geração após geração entrelaçando os elos, as veias que constroem uma cultura e, desde o seu início, colide com outros mundos, humanos e diferentes, para enriquecer a sua imaginação, o seu conhecimento e expandir o universo.

Imagem: “Glace et sang” (1971) – Anselm Kiefer