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A psicanálise da criança e do adolescente num mundo em mudança

Cem anos após a sua origem, falar de Psicanálise da Criança e do Adolescente permanece actual e revigorante. O encontro, proporcionado pela Sociedade Britânica de Psicanálise, que teve lugar em Julho em Londres, revelou ser um bom exemplo de que a psicanálise da criança se tornou num método de, antecipadamente, aceder ao que na vida adulta possa revelar-se como sentimentos de vazio ou trauma desestruturante.

A psicanálise da criança está viva e apresenta-se como um meio de compreender o mundo infantil, ajudar nas suas dificuldades e conflitos próprios do desenvolvimento mas, sobretudo, nos obstáculos que se interpõem nas suas ainda curtas vidas. A psicanálise aplicada às crianças e jovens tem também trazido aos psicanalistas uma maior capacidade de entendimento da  criança que vive, por vezes soturnamente, no adulto.  Muitas vezes, a parte infantil permanece no adulto oculta, sem poder ser escutada ou meramente reconhecida como parte integrante e fundamental do seu eu; talvez pela dor que dela deriva, quem sabe proveniente do sentimento de incompreensão vivido outrora, ou da criança que não pudera ser. É dessas feridas infantis que a psicanálise da criança se ocupa, através do jogo, do brincar – meio de comunicação prévio à narrativa – ou do desenho – formação de símbolos de transmissão de conflitos, afectos, movimentos inconscientes.

Neste encontro escutámos de forma particular a preocupação por parte de psicanalistas experientes sobre o modo como as crianças e jovens de hoje expressam os seus pedidos de ajuda e como esses pedidos poderão ser verdadeiramente escutados e compreendidos. O mundo mudou e essa mudança trouxe aos consultórios novas problemáticas, vozes de sofrimento que expressam o terror de não existir, de não ser alguém, de não poder identificar-se. As questões da identidade de género, a procura dos espaços virtuais em modo sobrevivência ou refúgio psíquico, a perda do sentimento de identidade, são questões vitais para qualquer criança ou jovem em desenvolvimento.

O que este encontro trouxe foi um certo apaziguamento no sentido de termos encontrado outros que exploram, estudam e se interessam por compreender melhor os desafios que hoje as crianças e jovens vivem. Falou-se sobretudo de isolamento, desamparo e solidão. De como, em situações de risco extremo para a sua própria vida, as crianças e jovens podem ainda encontrar em quem os escuta o sentimento de compreensão e esperança na construção de alguma coesão interna que poderão, posteriormente, transportar consigo. Mas, ser criança traz consigo a enigmática forma de estar no mundo através do recurso à fantasia, mesmo quando damos conta que o mundo do adulto parece confundir-se e entranhar-se cada vez mais no mundo infantil, dissipando e eliminando violentamente as suas diferenças.

Ser criança é também poder manter-se criança. Será preciso que continuem a existir adultos que zelem para que elas assim permaneçam, vivendo essa parte da sua vida de modo a que, no futuro, possam mantê-la viva e presente, crescendo como adultos mais capazes de estar consigo mesmos.