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A propósito do dia do pai

Um dia o meu filho fez-me aquilo que todos os pais temem que os filhos façam – embora, no fundo, o desejem: pediu-me a lua. Desdobrei-me então em argumentos para o convencer de que estava lá muito longe e que eu não lhe chegava. Mas ele insistia: queria aquela bola! Confesso que me deixou embaraçado e confrontado com uma infinidade de desafios: aceitar a legitimidade do seu desejo; aceitar a minha impotência perante tamanha exigência; ajudá-lo a aceitar a desolação de não ver o seu desejo realizado e a decepção com um pai que é incapaz de realizar uma tarefa tão simples como alcançar uma bola que está já ali; fazer isto de modo a que o seu desejo de alcançar a lua não esmorecesse, mas que eventualmente ganhasse outros contornos e outras tantas formas de se concretizar; reconhecer que ambas as bolas são reais: aquela que todos reconhecemos como sendo a lua e aquela que ele ali colocou e que servia para satisfazer a sua vontade de naquele momento marcar uns golos; (re)aprender com ele – e deste modo ensinar-lhe – que aquilo que vimos está mais no olhar de quem vê do que nas coisas que são vistas. Hoje penso que ele por fim condescendeu por me ver tão atrapalhado. Na altura, tentei convencer-me de que estava a tentar ajudá-lo a relacionar-se com a vida de forma criativa. Para me auto-consolar, claro está.

Surgiu então a fase em que, para continuar a ser pai, já não me bastava arrumar-lhe os sonhos durante a noite como quem lhe arruma o quarto. Vi-me então transformado num verdadeiro domador de fantasmas e pesadelos – daqueles que aparecem a quem se vai aventurando de forma vacilante por caminhos que ainda são desconhecidos.

A fase seguinte, revi-a ironicamente retratada na banda desenhada da Mafalda. Resistindo à vontade dos seus pais para que tomasse banho, o Manelinho, investido de toda a sua autoridade, diz-lhes: «Não penso gelar nu nesse maldito banho! Compreenderam bem?». No quadro seguinte, aparece o Manelinho já dentro da banheira, a pensar: «É notável como compreenderam bem».

Eis-nos chegados à fase sempre crítica em que a aceitação — a cada momento e de forma pessoal — dos desafios e do confronto impostos por um adolescente, com a consistência necessária para lhes sobreviver sem retaliar, mas também sem desistir, definem o que é ser pai, como tão bem nos mostrou Winnicott… Se é difícil!!

“Filhos criados, trabalhos redobrados”, diz a expressão popular. “Mais uma volta, mais uma viagem” diria o senhor do carrocel… e um novo ciclo se inicia.

Chegado o dia em que, ao contrário de o levar pela minha mão, precise ser levado, como um filho, pela sua mão, tenho esperança de poder ainda assim continuar a sentir-me pai, agora mais por dentro, permanecendo parte da sua coluna vertebral e assim continuando, para sempre, a tomar conta dele. Mas em segredo, sem que se aperceba, para não lhe beliscar o amor-próprio.

Imagem: João Santana Lopes