Publicado em

A outra  margem 

No quarto entrou a lua tão cheia e tão bela. É o entardecer de Dezembro e agarro a tua mão ainda quente, não sei se para te sentir ou porque esperas a passagem para a outra margem. Na sala não estamos sós. De pé atenta e invisível está uma dama de foice paciente e escura. Balbucias algo parecendo estar num tempo e espaço do pó das estrelas a que chamamos inconsciente.  Ainda não partiste? Porque esperas? A minha mãe antes de morrer sonhou que os avôs a vinham buscar calmos e sorridentes. Não sei para quem falas mas vejo-te menina na praia, sabes, naquela da Penha d’Águia onde parecias da cor das sereias. Paro mais um pouco e estamos no engenho do açúcar, o cheiro a peixe fresco saindo pelas escadas enquanto ouvíamos o coaxar das rãs e as pedras batidas no mar. Olho para a tua face sumida e espreito memórias da bebé de sua mãe. Não sei por quem chamas mas agarro a tua mão até entrares no bosque da nossa infância. Um dia voltaremos a brincar. 

Imagem: As etapas da vida (1834), Caspar David Friedrich