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A “Linha Vira(l) Solidariedade” (por alguém que não a integrou)

O AMOR REDIME O MUNDO diziam eles
Mas onde está o mundo senão aqui?
Mário Cesariny*

A estranheza e a violência com que fomos surpreendidos pelo acontecimento “Sars-Cov-2”, revestiu a nossa vida de um sentimento de irrealidade, pela aparente perda de referências, pela descontinuidade, onde nada do que era familiar, quer no tempo quer no espaço, parecia passível de ser reencontrado. Tal como num sonho. Este ambiente com contornos oníricos onde em parte sentimos que passámos a viver, teve entre outros aspetos o “mérito”, tal como os sonhos, de evidenciar aspetos que antes pareciam “ocultos”, desde logo, em relação ao nosso próprio lugar e experiência do nosso lugar individual e coletivo no mundo; à nossa relação com “o que é isto de viver”.

Muito se irá assim continuar a escrever e a representar de todas as formas, por natureza infinitas, que o trabalho do sonho permite, sobre o impacto e a natureza não só da pandemia, como dos fenómenos que a antecederam, acompanharam e dos que a seguirão. Um desses fenómenos a que assistimos foi a criação da “Linha Vira(l) Solidariedade”, pela Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP).

Se imaginássemos este acontecimento e todas as suas circunstâncias, como tratando-se do relato do sonho de alguém, poderíamos desde logo pensar, de forma simbólica, na mobilização das partes mais maduras da personalidade dessa pessoa, ao serviço da sua própria sobrevivência psíquica; da elaboração das suas angústias mais intensas, decorrentes de uma possível ameaça ou vivência potencialmente traumática, indo para tal ao seu encontro, tal como se expressam, tal como são.

Continuando a sonhar este hipotético sonho de alguém, encontraríamos no título escolhido, a palavra “linha”, com o duplo sentido de continuidade e de ligação; seguindo-se a palavra “vira”, que sugere movimento, mudança de sentido, perante uma eventual resposta de retirada ou “paralisia” face a uma realidade aparentemente ameaçadora. Realidade “viral”, como indica a última letra “l”, que ao aparecer graficamente “contida por dois parêntesis”, podendo representar a relação entre duas pessoas, permitiria assim retirar o seu carácter “patogénico”, infundindo-lhe novas potencialidades e sentidos. Por fim, a palavra “solidariedade”, indicando um último elemento necessário à transformação da experiência emocional, que talvez para além da tolerância à dor psíquica, seja o da “compaixão” por parte da própria pessoa em relação às suas partes mais frágeis, aquelas que permanecem fonte de dor e sofrimento, até que se estabeleça com elas uma relação de atenção, de cuidado, de cooperação, de “igual para igual”.

Foi o que fez a SPP a nível coletivo, respondendo à necessidade mais premente da criação e encontro de um lugar para a dor e a voz individual, ameaçada de dissolução no silêncio da indiferenciação dos números ou dos nomes próprios da virologia, “infetados” ou “não infetados”, “sintomáticos” ou “assintomáticos”, a que em parte continuamos a ser reduzidos todos nós. Num período de grande vulnerabilidade e incerteza também para a própria psicanálise; com a força da criatividade e a audácia da sua reinvenção, abrindo-se a todos, com a disposição de escutar a dor psíquica que era a de todos, precisamente onde talvez “ela mais doía”, a SPP apontou-nos o caminho.

Mais do que como membro, senti-me representado, como cidadão. Com efeito, contrariando um imenso número de colegas, não me disponibilizei então a integrar a equipa da “linha”, fazendo uso num momento mais imediato de defesas como o conceito de “identidade psicanalítica”, a qual não se enquadraria neste tipo de intervenção. Como se “identidade” fosse algo adquirido com o qual se parte ou a que se chega; algo concreto, fixo e definido, que existe em si e por si, e não um processo contínuo, interdependente do tempo em que se vive e por isso em permanente transformação. Como se num momento também como este, aquilo que pudesse ajudar em maior profundidade, fosse então averiguar “modelos”; ou não passasse na sua essência pela presença e pela partilha “nua”, despida de medos e de conceitos, do próprio ser junto de alguém.

Que impacto terá este acontecimento – prontamente acolhido e difundido pela própria IPA (International Psychoanalytical Association) – na psicanálise do presente e do futuro; de que modo e em que extensão a “viral solidariedade” se poderá tornar “solidariedade viral”, simbolicamente e não só, não o sabemos, mas temos razões suficientes para poder esperar o melhor.

*Mário Cesariny (excerto do poema Um Canto Telegráfico), In “Pena Capital”, Assírio & Alvim