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A ESTUPIDEZ DE EXISTIR

(Uma vacina contra a estupidez
seria um estrondoso fracasso comercial
Todos a recomendariam
ninguém se sentiria receptor adequado…)

No peculiar trajecto da cultura em que mergulhamos geraram-se inúmeras confusões. Na pressa e no protagonismo dos ultimatos tecnológicos, o cidadão comum já dificilmente  distingue o real do virtual, o interno do externo, as regras da liberdade democrática das regras da liberdade psicológica, os comportamentos experienciados dos sentimentos desbaratados, as intelectualidades racionalizantes das vozearias triunfantes. 

Na  tentativa de compensar os atordoamentos civilizacionais  e os receios de futuro que por toda a parte  se anunciam,  grande parte das pessoas passou a saber ansiosamente de tudo e a lançar o barro à parede mesmo sem barro nem parede, confundindo substâncias com insubstâncias,  margens de pensamento com margens de rendimento, pingos de chuva com pingos de coisa nenhuma. 

A grande maioria  transformou-se  num acidente de passagem,  ecoador obediente de tudo quanto a maquinaria passiviza. Não passarão de objectos digitalmente animados,   em seu próprio entender, despidos de história e de memória. Sobretudo despidos dos mais elementares sentimentos de individuação, num total pesprezo pelo seu  próprio   património emocional. 

Nas dores,  nas  alegrias, nas temporalidades, nas perspectivas, todos seremos iguais e amorfos,  atónicos ou distónicos, arrastados e sem peso. E todos proviremos dos mesmos encordoados alcatruzes,   acabadinhos de chegar  a um planeta sem reflexão nem análise. 

A “Misteriosidade”[1], que desde o paleolítico   conduziu os seres humanos na  profissão de viver, já nem  campainhas desperta. Graves perdas  de condição organizam-se em torno de um  Sindrome  de incidência exponencial  a que tenho vindo a  chamar:

 “A Estupidez de Existir”[2].   

Omite-se que os seres humanos, enquanto seres vivos, jamais deixarão de ser  corpos biológicos com ADN geneticamente determinado e que jamais deixarão de  ser indivíduos psicologicamente construídos desde o príncípio,  condições  essas onde só  posteriormente se sentam as alteridades   do colectivo a que pertencem. 

Omite-se que os seres humanos, enquanto seres (in)dependentes, jamais serão apenas fotógrafos da vida mas que inevitavelmente nela participam,  em pinceladas realistas, surrealistas, hiperrealistas, impressionistas, expressionistas ou abstractas, mobilizados pela subjectividade pessoalizada que  sine qua non  os distingue.

Omite-se  que os seres humanos, enquanto seres sociais, jamais poderão relacionar-se  com os outros apenas como objectos, porque  transportam esses outros dentro de si e com eles sofrem, emocionam, idealizam e  fermentam a sua   própria Saúde/Doença. Nunca os poderão dispensar, sejam quais forem os silicones incorporados. 

Omite-se que os seres humanos, enquanto seres inteligentes, jamais poderão tombar em concretudes despojadas de imaginação e oriente, mesmo que no quotidiano por hipótese se  afunilem  em estreitezas cada vez mais acentuadas.

Muitos  tecnocratas  esquecem  tudo isso. 

Alguns já  nem serão apenas tecnocratas: serão tecnopatas ou sociopatas, adoradores do Sol  e das  tecnoprofecias.  Já nem se  sentem pessoas ou pensam como pessoas, eles próprios utensílios das artificialidades que os enclausuram e que, num perfil quase psicótico, lhes conferem  benefícios narcísicos e quadraturas orgásticas onde se exaltam. 

Porventura brilhantes nos arranjos profissionais,  apenas lhes sobram  uns vagos resquícios das trocas afectivas-emocionais-artísticas que  aos humanos evolutivamente  proporcionaram benfeitorias  matriciais. Nem percebem que sem essas trocas jamais teríamos  obtido o grau de consciência que nos diferencia, ou que ainda permaneceríamos  numa pradaria sem casa, nada mais sendo do que  instintivos miradores e comedores da selva dos outros.  

Esquecem o incontornável livro do desassossego dos seres humanos.

Esquecem a nossa eterna necessidade de partilha. 

Esquecem o  que chamo o “Passo do Indio”,[3] fundamento global  da  espécie.

Será conveniente  lembrar que a sequência: 

medos acrescidos… misteriosidades embaciadas… insatisfações comprometidas… vulnerabilidades incumbentes… depressividades  instaladas…  constitui  o trajecto natural da Doença 

trajecto que a minha bisavó, provavelmente analfabeta,  perceberia bastante bem

mas que a  omnipotência científica-informática-laboratorial procura desconhecer,  enevoar e entorpecer 

obrigando-nos a cogitar sobre o que somos e sobre o que andamos por aqui a fazer

para não nos deixarmos encarcerar na destrutividade subjacente.

Jamais poderemos esquecer que os seres humanos não funcionam como  computadores, e que  tentar ultrapassar a sua  génese  estrutural  não será  mais do que dar um enlouquecido relevo à Estupidez de Existir.

Hoje, muita  Medicina chamada da evidência, nessa mesma atitude  se configura. Percorre imagens,  afaga geometrias, encharca quadriculados, num tabuleiro onde os   cultivadores  são meros instrumentos dos   próprios instrumentos e já nada  presumem sobre as humanas sensibilidades. Até as desdenham, quando fogem às palavras  e  se revêm nas superfícies espelhadas    que os gratificam. 

A Estupidez de Existir,  na prática clínica, começa nessa altura. 

Começa nessa  “insolvência de si”. 

Se persistir, talvez conduza à insolvência da própria  Medicina.


[1] Misteriosidade é um  conceito novo: será uma faceta  essencial e positiva dos humanos, contraponto e resultante do medo do desconhecido

[2]Longamente  caracterizo esse Sindrome no meu recente livro: “Ensaio sobre os Humanos…”

[3]    Os indios da Amazónia são exemplos ainda não perturbados  desta questão. Não separam o corpo do espirito, nem sabem o que isso será. Tudo neles funciona numa única atribuição.

Foto: Fotografia do autor