Publicado em

A capacidade de estar só

No seu artigo de 1958 Donald Winnicott debruça-se sobre a capacidade de estar só assumindo-a como um dos maiores símbolos de maturidade de desenvolvimento emocional e um dos fenómenos psíquicos mais sofisticados. Esta capacidade Winnicottiana não deve ser confundida, como diz o próprio autor, com a capacidade de isolamento voluntário, experimentado em alguns períodos da vida. Estar só, nesta concepção, implica aceder a uma certa capacidade de estar consigo próprio, independentemente de estar só ou acompanhado, tratando-se de um sentimento vivido na relação com o Eu, ao qual nem sempre é possível aceder, dependendo da constituição de um bom objecto internalizado, mantido vivo no mundo interno de cada um.

As mudanças abruptas da realidade actual vieram pôr à prova esta capacidade. Para muitos essa experiência foi vivida de modo turbulento, e até mesmo com sofrimento. Numa cedência à imposição de uma realidade limitada, foi inibido o contacto com o outro ficando circunscrito a um confinamento obrigatório que, apesar de se ter tornado numa experiência solitária, em nada tem a ver com a concepção de Winnicott. Decerto que esses momentos trouxeram a possibilidade de contactar mais de perto com os próprios pensamentos, como se o mundo se unisse colectivamente com esse propósito, num alheamento geral, virando-se para o interior. Porém, o confinamento trouxe à tona diversos sentimentos, muitos deles oriundos das profundezas primitivas. Angústias várias foram reactivadas. Perante a incerteza, a imprevisibilidade e o desconhecido, surgiu a obrigação de lidar com a impotência a que se sujeita o ser humano. Neste cenário, tornou-se ainda mais importante o sentimento de estar acompanhado por um outro. Um outro que oferecesse o lugar da escuta e da partilha, onde fosse possível pôr em voz alta pensamentos, dúvidas ou sentimentos mais turbulentos. 

Num tempo em que os locais de encontro se fecharam, outros espaços tiveram de ser inventados ou meramente desenvolvidos. Os meios de comunicação à distância vieram assim ocupar o lugar do espaço físico, embora comportassem consigo um certo sentimento de incompletude, obrigando a lidar com as suas limitações. Apesar disso, tornaram-se numa via que possibilitou colmatar a necessidade de comunicar, mantendo vivo o desejo de partilha. Assim, e de múltiplas maneiras, cada um foi encontrando os espaços que foram sendo construídos. A IPA tem oferecido, de forma contínua e numa frequência quase semanal, seminários virtuais sobre temáticas ligadas à realidade actual. Em diversas línguas tem sido possível aceder ao que outros psicanalistas pensam e de que forma têm vivido estes momentos desafiantes. Este espaço pôde ser vivido como lugar de reencontro com a comunidade psicanalítica e com a identidade de cada um. Também a Sociedade Britânica de Psicanálise tem proporcionado, através do seu Instituto, seminários gratuitos online. Outras Sociedades têm investido na divulgação virtual de seminários ou conferências sobre os mais variados temas, alguns deles retomando, saudavelmente, o curso normal da vida, escapando a uma forte realidade que se impõe. Múltiplos espaços têm vindo a ser criados, formando-se pequenos grupos de trabalho tendo em vista a partilha e a discussão, e que funcionam como pequenas bolhas de pensamento, devolvendo-nos a experiência do sentimento de alteridade.

O contacto com a pulsão de vida, promotora da pulsão epistemofílica, colocou cada um de nós à procura de um outro que se unisse a nós no sentimento de continuidade, de questionamento e de trabalho conjunto. Esse desejo comum, da ligação pela psicanálise, fez-nos sentir acompanhados, permitindo aceder a uma melhor capacidade de estar só. 

Winnicott, D., (1958/2018), The capacity to be alone, The Maturational Processes and the Facilitating Environment, Routhledge

Imagem: Edward Hopper – Shop Suey, óleo sobre tela, (1929). Coleção particular de Barney A. Ebsworth.