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A acupunctura cura

 

Uma fascite plantar, de início insidioso e assento persistente, acompanha-me há uns anos, caprichosa na dor aguda alternante. Três sessões por semana dão forma ao meu tratamento com o Dr. MT, especialista japonês em acupunctura. Vou no sexto mês de tratamento, até agora nada. 

Estou na maca de sempre, com 27 agulhas espalhadas pelo corpo. Ignorando a techné, o meu pé queixoso solta o gemido da minha apatia.  Entregue aos devaneios da pele furada, penso que o sofrimento não serve rigorosamente para nada, estão-se todos nas tintas, não me torna mais forte, faz-me sim cada vez mais ressequido e esvaziado de convicções. Na melhor das hipóteses, sairei daqui a encarar de frente a desventura da solidão. Talvez a agulha do meio da testa, mal colocada, também me esteja a alimentar a misantropia. 

No reflexo do espelho, reconheço a amarelada fealdade do meu pé doente. Desvio o olhar, recordo o furor báquico das minhas partidas de ténis e a cabeleira de Berenice, mas já nem as agulhas mais cravadas me trazem o cheiro a sangue. Tento pensamentos mais alargados.  Cristo foi circuncidado, mas o cristianismo pacificou-se com o prepúcio, se bem que a morte de Tolstói é que encerra uma verdadeira cena Bíblica. Procuro pensar noutros minotauros e centauros que pretenderam furar as portas da existência. 

A poesia e o vinho deviam bastar-me, aliás,  apenas o malte de Nikka e os haikus do Matsuo Bashô, mas no fundo acabam também por emporcalhar tudo em que tocam, abrindo lenhos de calúnia e cinismo. Absolutamente refractário, não há pensamento nem agulha que me toque o nervo. Não haverá mesmo nada em mim, ainda, de réstia do jovem crente na cura, no conhecimento? Vamos lá pensar, a esperança está dependente da crença e esta é a expressão emocional do conhecimento. Só posso esperar encontrar o que já conheço, pois só assim o conhecimento é encontro amoroso, religioso, salvífico. Mas, lá está, outra agulha incómoda, na virilha. Não há pensamento que diga a última palavra e a psicanálise do desconhecido talvez faça algum sentido. 

A nova assistente do Dr. MT, vem tirar-me as agulhas, vamos ficar por aqui. Nunca a tinha visto, traz no rosto a estonteante beleza das sedas distantes. Em silêncio, sempre a olhar-me nos olhos, a jovem assistente tira, doce e suavemente, cada uma das agulhas. Parece comovida, tem um olhar magoado. Quando saio o Dr. MT sorri e faz-me reparar que não estou a coxear. Diz-me: “só se pode ter o que se pede com indiferença”. Atordoado, saio da sessão em passo lento. De facto, ver, conhecer, apreender, não é virtude do nosso desejo. Para que o que desejamos ver se torne visível é imperativo que apareça a imagem. Ou seja, a visão desejada produz-se na medida em que a imagem nos procura.  

Mais ou menos assim, entre São Paulo e Kafka: Procurar a Luz é um acto da nossa crença, encontrá-la é um acto da sua Graça.

Acupunctura, recomenda-se.

Imagem: Paolo Roversi, Vanity Fair Portraits