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OBLIQUIDADES XI

Pesarosos e circuncidados, tão pouco instruídos e tão infantilmente edificados que na sua decrépita e lamentável ignorância ainda se atrevem a  contrariar os novíssimos evangelhos e a não cumprir  os   esclarecidíssimos mandamentos  das   assembleias civilizacionais,  grande parte dos homens  continua a vislumbrar   algumas pequenas diferenças entre o  masculino e o  feminino…

e, numa convicção tão antiga e tão questionável que os aproxima dos mamíferos paleolíticos,  persiste em supor que  tem algum ascendente sobre as mulheres…

(Fingindo   acreditar
nas suas   próprias suposições
e fingindo colaborar
nas suas próprias simulações…)

entendendo por ascendência a postura social da tribo que os habita.

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Adolescer confinado

Isto tudo já acabava!

“Já é difícil ser adolescente, quanto mais agora sem poder fazer nada”  – dizia-me uma jovem de 16 anos que poderia chamar-se Aurora.

Dentro das paredes das casas, redutos seguros em tempos estranhos, as famílias tentaram organizar-se o melhor que conseguiram. Cansados da pandemia (todos estamos), suspenderam a respiração, como se mergulhassem em águas profundas e aguardassem o tempo de voltar à superfície. Mas alguns já lutam com a falta de ar.
E os adolescentes fervilham em fogo lento.

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Um sorriso abre-se então num verão antigo e dura

À minha frente uma jovem empurra um carrinho de bebé. Vejo que não traz máscara e fico muito feliz pela bebé. Sorrimos. Por respeito para com os bebés nunca os cumprimento de máscara. A mãe autoriza-me a cumprimentar sem máscara a sua filha. Do seu carrinho-ovo a menina oferece-me um sorriso que é pés, braços e corpo inteiro e ficamos por ali numa conversinha de gente. A mãe entra na conversa, falo do sorriso social e ela diz que também já reparou. Como aprendi com João dos Santos, para comunicarmos com uma criança é preciso que nos coloquemos num lugar de onde ela nos possa ver inteiros. Um bebé não pode ver um adulto por detrás de uma máscara. Nem a si próprio, nas expressões entrelaçadas com o Outro. 

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