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Um Método Perigoso

Escolhi o título de um filme de 2011 que, de forma ficcionada, ilustra as relações amigáveis e mais tarde conflituosas entre Freud e Jung, psiquiatra e psicanalista suíço e um dos primeiros discípulos de Freud, para uma breve reflexão sobre a especificidade e os imperativos da relação analítica, bem como sobre o significado da violação ética dos limites da relação analítica. 

O filme mostra também a relação íntima e perigosa que se estabelecera entre Jung e uma das suas pacientes, Sabina Spielrein, e também o sofrimento que esta situação tinha trazido para ambas as partes. Sabina Spielrein, fez uma segunda análise com Freud e tornou-se psicanalista.  Foi a primeira analista, não certamente por acaso, que concebeu o conceito   de pulsão de morte, que Freud veio a aprofundar.

Vem esta análise a propósito das notícias recentes sobre o comportamento inapropriado de um psicanalista, reveladas no âmbito do movimento “Me Too”. 

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Fogachos Pandémicos IV: Distância Encurtada

No final de 2019, quando pela 1ª vez ouvi falar num doente com Covid, na distante Wuhan, lidei com a notícia com comparável distanciamento. Nessa mesma noite fui deitar-me com uma tranquilidade, percebo agora, pueril: é só mais um problema, que os cientistas, os que tudo sabem, vão resolver. 

Em Março de 2020 são identificados os primeiros doentes com Covid em Portugal, a OMS declara a doença Covid-19 como uma pandemia e é decretado no nosso país o estado de emergência…. Enquanto isso, dentro de mim, um burburinho surdo de sentimentos, de desejos, de receios e, mais uma vez, a negação do medo: ficamos todos em casa, confinados, terei mais tempo e mais disponibilidade mental para ler, retomar hobbies. Na imaginação todos os possíveis têm a mesma realidade. Ao recorrer a mecanismos mentais primitivos, precoces, a nossa mente evita experimentar uma confusão e uma ambiguidade intoleráveis e cria um sentimento ilusório de movimento e de alívio. E o medo da morte está intimamente relacionado com a solidão, medo do abandono e da dependência (Klein)

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Webinar IPA: Masculinidades – 21 de Maio 2021

Webinar da IPA subordinado ao tema “Masculinidades”, pelas 17h (hora portuguesa) tendo como participantes Miguel Calmon du Pin e Almeida, Cândida Sé Holovko e  Rui Aragão Oliveira da SPP  e, como moderador, Carlos Gari Faria.

Para se inscrever basta aceder ao link abaixo indicado.

Registro (gotowebinar.com)


Webinar: Masculinidades   sexta-feira 21 de maio, 16:00-17:30 BST (Encontrará seu horário local na página de inscrição.)   This webinar will be hosted in Portuguese. Este seminário será realizado na língua portuguesa.   Moderador: Carlos Gari Faria Palestrantes: Miguel Calmon du Pin e Almeida, Cândida Sé Holovko, Rui Aragão Oliveira   Neste Webinar serão abordadas algumas questões ligadas à construção das diferentes masculinidades e suas possíveis vicissitudes, considerando que as diferentes concepções de “masculino” no homem estão impregnadas pelo que cada cultura determina como ideal de masculinidade e pelas inter-relações e impactos destes mandatos na construção das subjetividades.   Com isso, partindo da noção de que as masculinidades não podem ser pensadas em função de uma natureza essencial dos homens, mas que, ao contrário, é construída nos inter-jogos psíquicos com seus cuidadores, o objetivo deste Webinar é evocar uma reflexão sobre o tema da masculinidade levando em consideração a relação intrínseca entre sujeito e cultura.   Ademais, sabe-se que a comunicação enquadra os principais elementos do funcionamento inconsciente envolvidos na criação e organização interna de tal concepção. Logo, o inconsciente, o infantil, o traumático, o estranho, presentes em tudo o que somos e fazemos, para sua representação, para este necessário nó entre o coletivo e o individual, exigem a dupla presença expressa pelas funções materna e paterna.   Inscreva-se gratuitamente no link abaixo; se você não puder participar da sessão ao vivo, mas gostaria de receber uma cópia da gravação, por favor, continue a se inscrever para receber um link de acesso automaticamente em seu e-mail depois de terminado o seminário.    

Para mais informações, por favor visite o site da IPA, clique aqui.   Silvia Wajnbuch Coordenadora de Webinars   Romolo Petrini Presidente do Conselho Editorial do Site da IPA
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O NOME DA ROSA: Umberto Eco e a importância da escuta

Uma recente sessão sobre a contratransferência, fez-me pensar numa afirmação do famoso escritor italiano Umberto Eco. E resolvi partilhar as reflexões que então fiz. Trata-se de um Universitário muito prestigiado, com vasta obra científica publicada, traduzida em várias línguas. Já avançado na sua carreira, resolveu escrever um romance, a que deu o título “O Nome da Rosa”.

Na badana da capa da primeira edição em italiano, que na altura comprei, contava que muitos lhe perguntavam porquê um romance, depois de tantos trabalhos científicos publicados. E explicava que, se depois de tantos trabalhos científicos, o autor publicava agora um romance, era porque, “in età matura, ha scoperto che di ciò di cui non si può teorizzare, si deve narrare “. Cito na língua original porque me parece uma afirmação fundamental quanto a uma conceção do funcionamento psíquico. (traduzindo: em idade madura, descobriu que, aquilo que não se pode teorizar, se deve narrar.) E de facto, a partir daí e continuando a sua atividade universitária, escreveu muitos outros romances (salvo erro mais 7). Narrou. Para que alguém ouvisse (no caso, lesse). 

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O inconsciente é o infantil

Na obra Notas sobre um caso de neurose obsessiva (1909), também conhecida como a análise do caso do Homem dos Ratos, Freud escreveu: O inconsciente é o infantil. Chamava assim a atenção para a importância do reconhecimento da existência de elementos inconscientes ligados às experiências e fantasias infantis presentes no mundo psíquico dos adultos. Na obra, Freud debruça-se particularmente sobre a rigidez dos mecanismos obsessivos instalados de modo a não permitir a conexão do seu paciente com as suas fantasias e desejos infantis, que permaneciam inacessíveis no seu inconsciente.

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