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INFÂNCIA & CINEMA

Em 1895 Auguste e Louis Lumière fazem a primeira sessão pública do cinematógrafo e Freud lança o “Projeto para uma Psicologia Científica” contendo já ali, seminalmente, as suas descobertas. Contemporâneos enquanto descoberta e irmanados pela abordagem, Cinema e Psicanálise influenciaram-se mantendo uma comunicação estreita – expressa ou velada. O diálogo potencial e complementar, oscilando entre afinidades e divergências, alarga a reflexão sobre as vicissitudes e a diversidade da condição humana.

Na história do cinema a psicanálise aparece muitas vezes confundida com a psiquiatria. Também os psicanalistas (Freud: the secret passion, Huston, 1962) e a sua atividade, confundida com a sua vida pessoal, tem sido alvo de humor senão de descrédito. Em 1926, Wilhelm Pabst projeta o primeiro filme sobre a psicanálise – Os Mistérios da Alma – com assessoria de Sachs no qual Freud se recusa a colaborar respondendo a Abraham (09.06.1925): “Não acredito que uma representação plástica satisfatória de nossas abstrações seja de todo possível.” Mantendo distância e desconfiança em relação ao cinema, a par com uma aversão a biógrafos e a habitual reserva da sua vida privada, aceita uma única vez ser filmado por um paciente americano, Philip R. Lehman, para um documentário (Sigmund Freud: his family and colleagues 1928-1947) lançado em 1985.

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E agora o Natal!!

A jovem Hannah e o seu Natal de 1949. 

Hannah, vivia numa família onde há vários anos, os pais não celebravam o Natal. A ausência dessa celebração, era sentida como um interminável silêncio gritante, que projetava uma tristeza, desesperança e sobretudo uma arrogância mortal que berrava: “Não precisamos do Natal, não precisamos do nascimento nem da vida”.

No Natal de 1949, Hannah, com 16 anos, corajosa e assustada, sente que não é mais possível não ter o seu Natal. E assim, no seu quarto, ergue uma árvore, dispõe velas e enfeites que recorta de folhas coloridas. 

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NATAL

Não na distância. Aqui. No meio de nós. Brilha

Na Primeira Grande Guerra, dita das trincheiras, as linhas ficavam muito próximas, de modo que cada soldado podia ver e ouvir os seus inimigos e alvejá-los caso se mostrassem. 

No dia 24 de Dezembro do ano de 1914, nas imediações da cidade de Ypres, na Flandres, alguns soldados aparentavam um humor descontraído e festivo, pareciam não se importar nem com a guerra, nem com o inverno. Alguns houve que, desarmados, começaram a  percorrer o espaço entre uma trincheira e outra, zona conhecida como terra de ninguém. Caminhavam até à trincheira inimiga e desejavam um Feliz Natal, oferecendo bebidas, partilhando comida, cigarros ou charutos, dando apertos de mão, oferecendo presentes. Trocaram botões de uniformes como lembranças e defrontaram-se em partidas de futebol. Há também relatos de soldados que tentaram montar árvores de natal dentro das trincheiras. Contam os historiadores que o clima de descontração e de festa borbulhava e que gerava um contágio mútuo entre as frentes inimigas, apesar dos editais contra a confraternização. Alguns soldados dedicaram cânticos de Natal aos adversários e muitos concordaram em estender a paz até ao dia de Natal para se poderem encontrar de novo e enterrar os mortos. Cada lado ajudou o outro a cavar sepulturas e a realizar as últimas homenagens fúnebres. As altas patentes ameaçaram os que fugiam ao cumprimento do dever. Mas nenhum edital e nenhuma ameaça resultou. Os oficiais envolvidos na trégua foram depois duramente punidos pelos seus superiores. Muitos recordaram a trégua nas cartas enviadas para casa e em notas dos seus diários: “Maravilhosamente espantoso, ainda que muito estranho”, escreveu um soldado alemão.

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Morreste-nos ou viveste-nos?!

Quino, faz muito tempo que este teu cartoon me acompanha, e sintetiza muito do que é para mim a psicanálise. Utilizo-o habitualmente na sala de análise, quando o desejo de sermos outros, de nos livrarmos de nós, de ir para a Conchichina, de mudar tudo, de começar do zero, se instala. Este hibridismo genialmente paradoxal a que nos habituaste, de sabedoria e decepção, de humor e surpresa, de poesia e crítica, faz-nos rir quando a dor se torna por vezes sufocante. E tu bem sabes que o riso é muitas vezes a nossa terapia, a nossa possibilidade transformativa. 

Por tudo isso e antes que termine o ano de “mudança catastrófica” global, que te viu partir, preciso revelar-te a minha gratidão e a boa companhia que significou o teu humor e o universo da Mafalda, seus pais e irmão mais novo Guille, e os amiguinhos Felipe, Manolito, Susanita e Miguelito. 

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Aos olhos de um vírus

Hoje, dia 3 de Dezembro de 2020 é lançada a edição do livro “Bode Inspiratório/Escape Goat”, saído à rua pelas mãos da Relógio d’Água em meados deste ano. Um projecto literário e artístico que juntou 46 escritores e 46 artistas plásticos portugueses, para além de 50 tradutores, durante os primeiros meses desta pandemia.

Entre muitos outros estão Mário de Carvalho, Inês Pedrosa, Afonso Cruz, Afonso Reis Cabral, Gabriela Ruivo Trindade, Rui Zink, José Fanha, Domingos Lobo, Licínia Quitério, Gonçalo M. Tavares, Álvaro Laborinho Lúcio, Rita Ferro, António Olaio, Ana Vidigal, Pedro Cabrita Reis, Manuel João Vieira, Pedro Proença e Teresa Pavão.

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