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Grupo de Reflexão SPP 2020/2021 – “Adolescente e Jovem Adulto” por Ana Catarina Duarte Silva Candidaturas abertas: até de 25 Novembro 2020

O início da vida adulta coincide muitas vezes com a entrada para o mundo do trabalho e, para muitos, com o fim da vida académica, constitui-se como um período extremamente rico e dinâmico, cheio de potencial positivo, contendo, no entanto, a sua contra-parte de risco. A novidade das relações profissionais, com os pares, com as chefias, reactiva sentimentos mais antigos pré-edipianos e edipianos, emergindo nos jovens estados infantis e adolescentes da mente, que se por um lado podem ser fonte de criatividade, podem também incorrer para o pólo oposto, deixando os jovens confusos, perplexos e desencontrados. Isto, porque neste palco mental figuram as questões do narcisismo, da confirmação da auto-imagem e do sentimento de si, exigindo da parte do jovem adulto, a mobilização de recursos adquiridos durante o desenvolvimento psicossexual, nomeadamente nos movimentos de dependência, autonomia, separação e luto.

Por este período ser ainda bastante plástico e moldável, a compreensão psicanalítica dos processos internos em jogo neste tempo de mudança na vida de um jovem, possibilita um óptimo amparo para que este se encontre consigo próprio e com o Outro. A partir da análise das situações expostas, perceber e reflectir analíticamente a dinâmica das relações, contribui para o bom desenvolvimento do bem estar interno e externo do jovem, ao invés de o deixar preso e bloqueado a esta problemática, empobrecendo-o, e não o deixando crescer, amadurecer e enriquecer pelo aprender com a experiência, que estas novas vivências lhe podem trazer.

São estes os aspectos que proponho reflectir nas sessões de supervisão institucional, de forma a ilustrar a importância e a contemporaneidade do pensamento analítico para uma melhor compreensão das dinâmicas internas e externas do nosso contexto sócio-cultural vigente.

Participantes: Aberto a psicólogos, pedopsiquiatras, psiquiatras, assistentes sociais, educadores, terapeutas da fala, enfermeiros ou qualquer profissional que deseja um espaço de reflexão em termos psicodinâmicos;

Grupo: 6 a 10 participantes;

Local: Sede da SPP, presencial ou por Zoom de acordo com as indicações;

Duração/Regularidade: Início em Dezembro 2020, 8 sessões por ano lectivo, uma vez por mês, às 5 feiras, das 21h às 23h;

Pagamento: 15 €/participante/sessão, totalizando 120 €. Uma vez realizada a inscrição, o pagamento total será vinculativo podendo ser parcelado em três vezes: na inscrição, até final de Fevereiro e até final Maio.

Datas previstas: 10 Dezembro 2020; 7 Janeiro, 4 Fevereiro, 4 Março, 1 Abril, 6 Maio, 17 Junho, 1 Julho de 2021.

Candidatura: Envio de carta apresentação/motivação para o e-mail: sppsicanalise2013@gmail.com

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As máscaras invisíveis das redes sociais

Em Março começámos a usar máscaras que fazem parte desta nova vida trazida pelo vírus. Há quem afirme termos ficado privados das expressões faciais eloquentes de uma certa emocionalidade. Para as crianças pode ainda ser mais complicado, pois, dependendo da idade não têm ainda um mapa interno representativo das emoções.

Para os adultos o olhar é suficientemente dizente e mesmo tendo perdido alguns dos indicadores de expressão podemos ainda ter o tom de voz, postura corporal entre outros.

E as máscaras anteriores ao Covid? Noutro dia uma paciente dizia-me que depois do período de confinamento, começou a sair indo a alguns jantares com amigos. Pareceram-lhe pobres alguns destes encontros. As máscaras invisíveis são as que colocam as pessoas em modo defensivo, fechadas atrás de rostos impassíveis e escudando-se a uma partilha emocional. Dizia ela: “Fala-se de um tudo que é nada porque nos defendemos da intimidade”. Fiquei a pensar no que ela disse. Estamos assim ou fomos sempre assim? Pensei nas redes sociais como o Facebook, Instagram, YouTube e em como elas nos despem em tantos sentidos. Há qualquer coisa de errado quando escolhemos, preferencialmente, estes meios para comunicarmos. 

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Um olhar sobre a Psicose

Tendo nascido em Alvalade – um bairro de lisboa – cedo contatei com doentes do Hospital Júlio de Matos, senhores estranhos de aspeto descuidado vagueando pelas ruas. Alguns evocavam em mim temor e sobressalto. Mas este mistério humano da loucura fascinava-me. 

Anos mais tarde integrei uma equipa comunitária que, através de atividades culturais – Teatro, Música, Artes Plásticas, Literatura, Visitas Culturais – procurava apoiar pessoas com um diagnóstico de esquizofrenia, criando contextos que as estimulassem a sentirem-se vivas e a dar sentido às suas vidas. Desde cedo senti que era necessário estar disponível como homem para criar relações com os utentes. Interessar-me pelas suas histórias de vida, respeitar as suas dificuldades, escutar a forma como têm ultrapassado os obstáculos. O olhar que temos face a um sujeito psicótico é de grande importância. A minha experiência tem-me mostrado como é importante termos um olhar direto, não intrusivo, mas disponível e acolhedor. Sem receios. Um olhar que exprima algo benigno. Como dissesse, “Estou disponível e curioso para viajar consigo.”  

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Sem-abrigo: evitemos slogans!

O discurso acerca dos sem-abrigo tende a radicalizar-se à volta do eixo factores individuais vs estruturais. Ou, se quisermos, o que está dentro ou fora do indivíduo.

Por exemplo, podemos ouvir que a problemática sem-abrigo tem a ver com a doença mental e consumos. Mas também podemos ouvir que é sobretudo um problema de pobreza e de falta de casa. 

Esta discussão é importante e tem consequências. Um dos perigos é poder conduzir a uma atribuição errónea de responsabilidade. Por exemplo, tomar como patologia individual, algo que é da ordem da crise colectiva.  Ou vice-versa. 

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PORTO _ Cidade das Pontes

O Porto, ao norte
Onde fiquei
Onde tantas e tantas vezes

Regressei
Atravessando pontes
Bem altas sobre as escarpas
Sobre o Douro prateado

Cruzado
Por cinco pontes de um só arco
De lado a lado, desenhado,
Firme, elegante, bem lançado
Dois de ferro rendilhado
Dois de cimento armado.
E ao fundo, o poente iluminado,

A Foz discreta sobre o Oceano
A Barra de travessia incerta
Lá dentro, o Porto
Sóbrio e granítico, esconde
Íntimos jardins românticos

Com bancos de pedra e lagos
Floridos com belas magnólias
Japoneiras com camélias
Flores efémeras, com pétalas
Tapetam os seus relvados.
No Porto, sóbrio e granítico
Onde fiquei
Com as belas magnólias
Me encantei.
Na certeza de que as pontes
Não apenas de regresso
Me dariam também acesso

A todo o Mundo!

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O Inimigo

“Perante o flagelo… perante o escândalo da morte anunciada, iminente e cega, as comunidades têm uma tendência irreprimível para se unir no medo…”  Bernard-Henri Levy (2020)

Naquela manhã de final de Agosto, dirigi-me à parafarmácia habitual, na tentativa de, pela terceira vez, furar as orelhas das minhas filhas (nestas tenras idades, mal se tiram os brincos, logo as orelhas repõem o que falta!). Perante o comentário firme e inamovível da farmacêutica – “já não furamos as orelhas” -, resolvi ingenuamente (ou por teimosia, ou curiosidade) perguntar porquê, e logo ela, de olhar indignado e ar de “beata”, me responde: “Não podemos, por tudo o que está a acontecer no mundo…” 

Aquele comentário irritou-me, pelo tom moralista, raiado do politicamente correto, semelhante ao que se sente quando se come uma sardinha em frente a um Vegan…
Senti que a minha atitude mais despreocupada punha em causa uma certa “tranquilidade” que o “terrível que está a acontecer no mundo” parecia dar àquela pessoa… Um sentido? Uma compreensão de todos os males? Um inimigo designado?

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