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A Máscara

“A epidemia é um fenómeno social tanto quanto médico” Bernard-Henri Levy (2020)

“When reality is surreal, only fiction can make sense of it” Decameron project, New York Times Magazine (2020)

Era uma vez uma máscara cirúrgica que se sentia desvalorizada por estar confinada nas bocas-narizes dos cirurgiões e dentistas: “Como é possível”, pensava, “que neste mundo cada vez mais globalizado, eu esteja restrita aos médicos, e que as pessoas só me olhem quando estão deitadas na marquesa”? Então, interrogou-se sobre quem a poderia ajudar a espalhar-se no mundo, e lembrou-se dos vírus: aqueles seres insignificantes, que nem sequer pertencem ao mundo dos vivos, mas que descobriram uma maneira extraordinária de utilizarem as células vivas para se multiplicarem. 

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Aquele Abraço

Após o golpe de Estado em 1964, o Brasil passou a viver tempos especialmente difíceis. Uma dessa ocasiões particulares deu-se em 1968 com o Ato Institucional nº 5. Promulgado pelo governo militar primava pela aplicação de restrições, nomeadamente no seio do movimento artístico com a censura prévia de música, cinema, teatro e televisão, por subversão moral ou dos bons costumes. 

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“I can’t breathe”

Nestes tempos de pandemia, em que assistimos ao poder de contágio à escala mundial de um vírus, o caso George Floyd, com o seu “i can’t breathe”, saltou igualmente fronteiras e tornou-se um símbolo da luta contra o racismo, injustiça e opressão, que reverberou por todo o mundo. 

O “não consigo respirar” é um estado que os psicanalistas conhecem bem. Desde logo quando os pacientes procuram ajuda por causa de uma crescente ansiedade que oprime o peito e a garganta, tornando a respiração presa, superficial, ofegante.

Mas também quando os pacientes, aos poucos, frequentemente em surdina, começam a falar de situações que oprimem e asfixiam. 

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Quarentena ou a descoberta da casa

Entrar no trabalho às nove, acabar de trabalhar às nove da noite. Muitos fins de semana ainda a trabalhar ou a fazer atividades associativas. Férias na praia, nas cidades, nas montanhas. Fins de semana em escapadinha, para relaxar.

E de um dia para o outro, a Covid-19 e ordem para ficar em casa. Proteção, segurança. E proximidade, atropelo, desordem, claustrofobia. 

O espaço da casa não está habituado a tanta permanência. Conta com algumas noites, pedaços de dia, conta com o grupo familiar todo junto apenas às vezes. Por isso desorganiza-se, os habitantes também, confundem-se as vozes do teletrabalho, os sapatos espalhados na sala duplicam, os assentos ocupados por computadores ou papéis irritam os que não são seus donos, o empilhamento para criar espaço confunde os papéis de todos, isto não é meu, o que está a fazer nas minhas coisas, vê lá se te incomoda, tenho aqui este livro que também não é meu, que confusão vai por aqui.  A casa que se suja a dobrar, a comida que tem de ser feita em quatro refeições por dia.

E a pouco e pouco, as  descobertas. 

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A capacidade de estar só

No seu artigo de 1958 Donald Winnicott debruça-se sobre a capacidade de estar só assumindo-a como um dos maiores símbolos de maturidade de desenvolvimento emocional e um dos fenómenos psíquicos mais sofisticados. Esta capacidade Winnicottiana não deve ser confundida, como diz o próprio autor, com a capacidade de isolamento voluntário, experimentado em alguns períodos da vida. Estar só, nesta concepção, implica aceder a uma certa capacidade de estar consigo próprio, independentemente de estar só ou acompanhado, tratando-se de um sentimento vivido na relação com o Eu, ao qual nem sempre é possível aceder, dependendo da constituição de um bom objecto internalizado, mantido vivo no mundo interno de cada um.

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Nas entrelinhas dos livros

A Porta (1), romance da húngara Magda Szabó, narra a estreita relação que se estabelece entre duas mulheres na Hungria dos anos do pós-guerra: Magda, uma jovem escritora, e a sua empregada, Emerence, uma camponesa analfabeta.

Esta relação entre duas mulheres tão desiguais abre-nos espaço de pensamento.
Ler um romance é, quando ele é bom, uma viagem que em muito extravasa a história contada. Dá-nos acesso a áreas não saturadas da mente, permite-nos novos encadeamentos, com sorte, algum insight.

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O que vais lá dizer?

A crise que temos vivido fez nascer várias linhas de atendimento, de que é exemplo a linha criada pela SPP. As pessoas que a procuram são as mais variadas, à semelhança do que acontece com as pessoas que procuram ajuda em serviços públicos de saúde. O que pode uma linha destas oferecer? E o que procuram as pessoas que recorrem ao serviço público? Ou ao privado?

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