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Psicanalista em confinamento

Algo diferente e profundamente inquietante se instalou no meu amplo e novo consultório. Foi depois de um estranho fim de semana de Março, onde a agitação da cidade, que lá em baixo se avista, ficou reduzida a um deserto de vento silencioso. Os cães que corriam soltos no imenso parque de estacionamento e onde os carros estavam inexplicavelmente ausentes deram-me o sinal. Hitchcock, o mestre do suspense, parecia ter-se apoderado do enredo: o enorme edifício de escritórios estava sem vida, e na praça que contemplo, habitualmente agitada, somente os semáforos continuavam a reclamar ruidosamente a presença de uma multidão agora inexistente. Percebo então a postura dos poucos corpos fugidios que ainda alcanço, retraídos, distantes e apressados.

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Nostalgia da Presença (e da Liberdade)

O confinamento (palavra vã e gasta) traz a vontade de sair, de partir, fazer as malas para outro lugar, algures lá fora, algures no mundo e com alguém. A distância traz vontade de intimidade. O écran traz vontade da presença ou da Presença. O poema dá vontade de o reconstruir e pôr Pessoa a rir: Ai que prazer não cumprir um dever/ ter uma uma teleconsulta e não a fazer! Zoom é maçada, teclar é nada/O sol doura sem internet /O rio corre, bem ou mal/ Sem ligação original/ E a brisa, essa, De tão naturalmente matinal, Como tem tempo não tem pressa (…)O mais do que isto é Freud/ Que não sabia nada de skype/ Nem consta que tivesse banda larga….

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Quem não morre sempre reaparece: a História e o Teatro do Mal

Em 1978, Aldir Blac, grandioso compositor, vítima mortal do Covid-19, escreveu em Querelas do Brasil:

O Brazil não conhece o Brasil

O Brasil nunca foi ao Brazil

O Brazil não merece o Brasil

O Brazil está matando o Brasil

Partilhando a profunda tristeza expressa pela colega Sandra Pires no seu mais recente texto publicado no Blog para o qual também escrevo, confesso que, ao testemunhar o processo de desarranjo económico-ético-político, desde há muito em curso no Brasil e que atinge um estado de anomia social[1], o sentimento de perplexidade já não é superior ao de pessimismo realista. Este, só ganha proporções menos devastadoras por impulsionar a procura de espaços comuns de compreensão, de constante interlocução e de boa atuação.

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O tempo da psicanálise – Outrora Agora

Considero que, para um psicanalista, a aquisição deste ritmo entre passado e presente, este percurso do outrora-agora, são essenciais para o tempo da psicanálise, e fundamentais para o desempenho da sua função. Faço um breve resumo do que isto me faz pensar.

 A vida de qualquer pessoa é vivida como a continuidade de uma experiência, que é a experiência de estar vivo. E com o andar do tempo, esta continuidade da experiência vai-se enriquecendo com a experiência da continuidade.  

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Lá fora

Alfred Hitchcock no seu filme de 1954, “Janela Indiscreta” (Rear Window, cuja tradução literal é “Janela das traseiras”, apelando ao que se desenrola por detrás), narra o crescente desenvolvimento de sentimentos paranóides vividos pelo protagonista. Impossibilitado de se mover e confinado ao espaço de sua casa, o fotógrafo Jeff (James Stewart), sente-se gradualmente invadido por um sentimento claustrofóbico paralisante. 

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A sedução pelo populismo radical: ascensão da extrema-direita na Europa

Nos indivíduos, a loucura é algo raro – mas nos grupos, nos partidos, nos povos, nas épocas, é regra.

                                                                                                                                                         Nietzsche

Sabemos através da história que acontecimentos extraordinários, como graves crises económicas, guerras, catástrofes naturais e outros eventos extremos, são o caldo de cultivo para o florescer do fanatismo e de ideologias extremistas. Quando o tecido social é rasgado por eventos traumáticos, quando se rompe a barreira de contacto do inconsciente colectivo, as forças inconscientes podem irromper e extravasar a capacidade de contenção e de pensar de grande parte de uma nação, deixando um lastro de destruição. Muito antes da crise mundial causada pela actual pandemia, já o mundo sofria de sintomas preocupantes do ressurgimento do populismo de extrema-direita.

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No Dia Mundial da Criança, ouvindo João dos Santos

Diante das velhas pedras das antigas civilizações, sinto-me num estado emocional idêntico àquele que me invade quando observo as crianças pequenas a construir o seu mundo.

 João dos Santos

Em “O Interesse da Psicanálise” Sigmund Freud aponta como contribuição principal da Psicanálise para a Educação o reconhecimento da importância da Infância. É uma extraordinária coincidência que João dos Santos nasça em 1913, o ano em que este trabalho é publicado. Psicanalista e pedagogo, pioneiro da moderna Saúde Mental Infantil e dos diálogos entre a Psicanálise e a Educação em Portugal, João dos Santos faz do enunciado freudiano o fundamento da sua obra, convidando cada adulto a encontrar-se com a criança que guarda dentro de si, para que possa educar.  A motivação para os problemas da criança, escreve, reside na infância de cada um, a experiência infantil  acompanha-nos pela vida fora, tal como a obra tem uma estrutura de base e toda a construção um alicerce, também a personalidade tem uma base ou alicerce que é a infância e tal como o edifício depois de acabado, retocado e experimentado não pode dispensar os alicerces, também a pessoa não pode mentalmente anular a experiência e as vivências da sua criação . 

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