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Teatro do mal no cenário político brasileiro

Perplexidade e tristeza são os principais sentimentos que nos convocam a atual situação política do Brasil.

Os políticos bolsonaristas têm exposto reiteradamente, em público, atitudes de justificação da tortura e da execução arbitrária e indiferença afetiva para com as vítimas da ditadura ou da atual pandemia que assola o mundo e, de forma muito violenta, o Brasil. Prevalecem condutas de irracionalidade na abordagem à crise sanitária da pandemia, negando-se a gravidade do vírus, socorrendo-se de convições messiânicas e delirantes sobre medicamentos ou deuses salvadores, ou promovendo-se a proximidade social apesar do risco de infeção.

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Covid 19 – Regresso à creche

No dia 18 de Maio de 2020 só 25% das crianças regressaram à creche. A maioria dos pais teve medo de trazer os filhos. Algumas crianças que vieram pareciam regredidas, outras pareciam reconfortadas por poder sair de casa e voltar a um espaço de brincar. As educadoras receberam-nas com abraços, apesar das máscaras. 

Impressiona como as crianças mostram uma capacidade tão grande de adaptação!

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Quovadis-Covid?

No último webinar da IPA “L’accident Covid au coeur de l´humain” Martin Gauthier, psicanalista Canadiano, afirmava “A psicanálise foi infetada, qual o remédio para a desinfetar?”. Com esta frase pretendia falar das transformações do setting analítico e das repercussões criadas pelas novas respostas de atendimento.

Com esta frase fui chamado por outra, essa sim bíblica, onde, segundo o evangelho apócrifo, S. Pedro fugindo de Roma para não ser crucificado encontra Cristo ressuscitado na Via Ápia e pergunta-lhe “ Quo vadis Domine?” – “para onde vais Senhor? Ao que o Senhor lhe responde: “Roman vado iterum crucifigi“ – “volto a Roma para ser crucificado de novo”. Depois dessa afirmação, Pedro arrependeu-se e regressou a Roma.

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Limite(S), deslimite(S) e neo-limite(S): uma nova geografia [também] psíquica?!

A realidade em que hoje vivemos, ditada pela crise pandémica, impõe limites novos e desafia outros, outrora firmados e estabelecidos. Nesta espécie de paradoxo – cuidadosamente separados e muito distantes, na rua, MAS confundidos, em casa -, procuramos viver… ou sobreviver.

Se é verdade que as autoridades sanitárias sublinham a necessidade de usarmos protecções externas – máscaras, luvas, viseiras –, como barreiras que nos protegem da infecção por COVID-19, e circunscrevem a nossa liberdade, remetendo-nos para uma vida intra-muros, não é menos verdade que o dia-a-dia desta Era (?) atenta contra as fronteiras clássicas, nomeadamente as que separavam, outrora, o mundo do trabalho e da escola de outro, mais privado e familiar, que as nossas casas e apartamentos tão bem representam.

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Sair do Inferno dantesco*

A metáfora da travessia é amiúde convocada perante a ameaça sentida em momentos traumáticos.

A representação do Inferno, na Divina Comédia (DC), é a “selva escura”, onde o autor diz ter deparado com “as três feras”. 

Porém a “fera” que mais impacto causa é a loba/Avareza. A sua figura provoca susto, pavor, barra o caminho à progressão, numa ascensão anteriormente iniciada:

“a esperança em progredir me era defesa”

– “assim, sem paz, a fera me encurrala”

– “a empurrar-me lá onde o sol se cala 

 – para baixo me desloco

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“Vai ficar tudo bem” – entre a angústia e a esperança

Há uns anos atrás, uma paciente minha, estando grávida, foi internada devido a uma situação que ameaçava a gravidez. Fomos falando ao telefone, até que um dia recebo uma mensagem anunciando-me o nascimento do bebé. Telefonei-lhe e fiquei a saber que tinha nascido prematuro e que ainda corria risco de vida. Escutar a sua angústia foi a minha função principal, mas a dada altura dei por mim a dizer-lhe “vai correr bem”.

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Navegar é preciso, viver.

– Tens uma casa?

– Queres dizer uma casa com quatro paredes e um espaço?

 – Não, uma casa na cabeça.

 Alexandro Baricco, Trois fois dès l’aube

Caminho por este canto do mundo de que nos fala Alexandro Baricco. 

Uma crise, momento de rutura brusca na homeostase psíquica e social, revela sempre uma história, as suas fraturas e os seus acidentes, construções realizadas e deficitárias. O desfecho dependerá quer de factores internos, recursos pessoais disponíveis, quer de factores externos, suportes emocionais e sociais de que o individuo possa dispôr. O que verificamos que agora faz falta e (nos) falha, possivelmente já fazia falta e já falhava. O que está bem construído, permanece e dá suporte. 

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O real, o tempo e o espaço em tempos de Corona

Trago na memória o momento em que, pela primeira vez, senti que tudo tinha parado: já não eram só as ruas desertas, as pessoas que não passavam… Algo estranho se sentia no ar. Também o rio e o céu tinham emudecido, não havia barcos no rio, nem ondulação nas suas águas, nem luzinhas dos aviões no céu… Um cenário sem atores onde um latido ocasional interrompendo o silêncio fazia imaginar que a cidade se tornara campo… 

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