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A Escuta do(s) Corpo(s)

Sim: Existo Dentro do Meu Corpo

“Sim: existo dentro do meu corpo. 
Não trago o sol nem a lua na algibeira. 
Não quero conquistar mundos porque dormi mal, 
Nem almoçar a terra por causa do estômago. 
Indiferente? 
Não: natural da terra, que se der um salto, está em falso, 
Um momento no ar que não é para nós, 
E só contente quando os pés lhe batem outra vez na terra, 
Traz! na realidade que não falta!”
 

Poemas Inconjuntos”. Poemas Completos de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa, Lisboa: Presença, 1994.

A convite, apresentei, no passado dia 26 de janeiro, um caso clínico a Fernando Orduz, no II Encontro de Candidatos da IPSO, “O Corpo Psicanalítico- Teoria, Técnica e Prática”.

Conheci-o no Congresso “Modificações no Corpo” em 2017 e, desde então, sempre que o via/ouvia associava-o imediatamente a uma sensação de movimento e de liberdade.

Questionava-me como ele seria em contexto de supervisão. Que postura adoptaria? Que visões traria sobre um dos pilares fundamentais da formação psicanalítica, introduzida por Abraham, Eitingon e Simmel no Instituto de Berlim na década de 20?

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Visita do Board da IPA a Lisboa

Welcome IPA Cocktail – Sede da SPP – 18 Janeiro 2019

No seguimento da visita do Board da Associação Internacional de Psicanálise (International Psychoanalytic Association-IPA) a Lisboa e da conferência da sua presidente,   Prof. Doutora Virgínia Ungar,   apresentada no ISPA no passado dia 21 Janeiro, vimos dar a conhecer a entrevista concedida ao jornal Público. Poderá aceder através do link: https://www.publico.pt/2019/01/29/culto/entrevista/psicanalise-melhor-terapia-podemos-oferecer-1859465

Prof. Doutora Virginia Ungar
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Retrato de Família

As crianças desenham a sua família de mil maneiras. Para além de construírem diferentes cenários familiares, estes desenhos parecem ser verdadeiras encenações em que elas inventam várias famílias e experimentam outras tantas maneiras de nelas e com elas viverem. Colocam no desenho só quem querem que lá esteja e a fazerem o que elas querem que eles façam, realizando assim os seu desejo, ou então desenham quem receiam que lá possa estar, para os controlarem melhor. Posicionam-se a si próprias, em relação aos restantes, na posição em que se vêem na sua família, outras vezes naquela em que gostavam de estar, outras ainda naquela em que mais temem vir a ficar, fazendo neste caso desenhos que mais parecem rituais de exorcização dos seus medos. Quando um desses desenhos materializa de forma particularmente conseguida algum dos mitos mais inquietantes daquele que o desenhou, fica condenado a permanecer colado na parede por mais tempo do que seria de prever. Por vezes não é fácil perceber porquê. Nessa altura intervêm os pais.

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Luz e melancolia na pintura de Joaquín Sorolla

A recente visita à exposição Terra Adentro – A Espanha de Joaquín Sorolla, patente no Museu Nacional de Arte Antiga do Mestre da luz, desencadeou em mim sentimentos de comoção e curiosidade. Este acervo oferece uma perspectiva da sua evolução como pintor, reconhecido mundialmente pela sua técnica única de reprodução de paisagens e retratos. Continuar a ler Luz e melancolia na pintura de Joaquín Sorolla

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A outra  margem 

No quarto entrou a lua tão cheia e tão bela. É o entardecer de Dezembro e agarro a tua mão ainda quente, não sei se para te sentir ou porque esperas a passagem para a outra margem. Na sala não estamos sós. De pé atenta e invisível está uma dama de foice paciente e escura. Balbucias algo parecendo estar num tempo e espaço do pó das estrelas a que chamamos inconsciente.  Ainda não partiste? Porque esperas? A minha mãe antes de morrer sonhou que os avôs a vinham buscar calmos e sorridentes. Não sei para quem falas mas vejo-te menina na praia, sabes, naquela da Penha d’Águia onde parecias da cor das sereias. Paro mais um pouco e estamos no engenho do açúcar, o cheiro a peixe fresco saindo pelas escadas enquanto ouvíamos o coaxar das rãs e as pedras batidas no mar. Olho para a tua face sumida e espreito memórias da bebé de sua mãe. Não sei por quem chamas mas agarro a tua mão até entrares no bosque da nossa infância. Um dia voltaremos a brincar. 

Imagem: As etapas da vida (1834), Caspar David Friedrich