Publicado em

11´09´´01 – September 11 

Já se passaram mais de 17 anos sobre o ataque terrorista aos  Estado Unidos e faz já vários anos que vi pela 1ª vez, numa   cativante aula da Escola Superior de Teatro e Cinema um dos filmes sobre o 11 de Setembro de 2001. Em virtude das repercussões que o atentado teve e da qualidade do filme inserido no projeto de Alain Brigand  julgo merecer ser lembrado. Brigand convidou 11 realizadores para em 11 minutos, 9 segundos e 1 frame, numa alusão à data, darem a sua visão sobre o ocorrido no fatídico dia em que nos foi apresentado o  deserto do real, numa analogia a Matrix( Zizek, 2003), numa realidade tão surreal, mais  se assemelhando a uma cena duma produção mainstream. Nesse dia 4 aviões comerciais foram sequestrados por integrantes da Al-Qaeda, tendo 2 chocado contra o World Trade Center, outro contra o Pentágono e um quarto caiu na Pensilvânia. Quase 3 mil mortos. O mundo não voltou a ser o mesmo.

O filme escolhido para visualização na aula foi o do mexicano Iñárritu e ao vê-lo lembro-me de ter ficado estupefacta, em choque mesmo levando-me a rapidamente tentar obter o dvd, que acabei por encomendar. Depois de o ver integralmente considerei o filme de Iñárritu como indiscutivelmente o mais impactante e interessante como produção artística.

Iñárritu não filmou, utilizando-se antes de imagens e sons que foram gravados e transmitidos pelos media, ao redor do mundo. O filme começa com a tela preta(que irá predominar num espaço que convida à introspeção) ouvindo-se apenas vozes, murmúrios, cânticos/preces  e a dada altura um flash duma imagem que não consigo  identificar, depois são vozes que se ouvem do interior dum avião, depois as notícias concernentes ao desastre, gritos, chamada telefónica, uma declaração de amor. Depois novamente as imagens, antes flashes, que pela sua maior duração permitem   que reconheça tratar-se de pessoas que em total desespero lançam-se das torres do WTC. O som crescente à medida que o avião se despenha, de repente é suspenso e vê-se a explosão do avião. Iñárritu separa som e imagem, assim obtendo um efeito mais impressionante, na verdade foi tudo intenso demais, violento demais, incapacitando a pessoa a reagir de forma adequada, impedindo a elaboração psíquica… mas como reagir ao inimaginável? Iñárritu não mostra os aviões a caírem, apenas a explosão depois de termos visto  as pessoas que se atiravam dos prédios, assim alterando a ordem cronológica numa lógica prevalente do inconsciente, diferente da clássica, do pensamento lógico, contendo   condensação, atemporalidade, substituição da realidade externa pela interna (Matte Blanco).O filme termina com os cânticos iniciais e com uma música suave, a tela vai clareando, num   assumido desejo de Iñárritu  de experenciar catarse…Um festival de afetos, como diria Barthes a propósito dos filmes..Termino com  McCartney….Iam talking about freedom..I will fight for the right to leave in freedom.. Ou não é essa também a liberdade que a psicanálise almeja? a possibilidade do sujeito ser livre no seu próprio pensar, livre na sua escolha tendo sempre em conta a liberdade do outro? Neste pressuposto aonde é que o pensamento do Bolsonaro se insere?