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Revista SPP: Volume 36(1)

Revista SPP 36-1

Editorial

Maria Fernanda Alexandre

A direcção da Revista Portuguesa de Psicanálise (RPP), órgão oficial da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP), gostaria de exprimir os seus agradecimentos ao comité de programação do quadragésimo nono Congresso da International Psychoanalytical Association (IPA), que se realizou em Boston em Julho de 2015, por nos ter permitido publicar um conjunto de artigos de relevante leitura e de marcante reflexão. Também gostaríamos de agradecer ao anterior director da revista, Rui Aragão, pelo dinamismo que implementou à revista durante o seu mandato, que terminou em dezembro de 2015, bem como por ter contribuído, com a sua persistência diplomática, para a concretização dos acordos de publicação dos artigos entre a IPA e a nossa Revista. Neste número da Revista (36) mantemos a habitual estrutura organizativa à volta de um Artigo Temático Convidado, de Artigos Teóricos e Clínicos, de artigos de Intercâmbio, de uma entrevista, de uma evocação e naturalmente as habituais recensões.

O artigo temático “El Oficio de analista Y su caja de herramientas; La interpretation revisitada”, escrito por Virginia Ungar (presidente da IPA), representa um convite à reflexão e à interrogação quanto à forma como os intrumentos conceptuais do trabalho analítico – como, por exemplo, a interpretação – são realizados num tempo que se caracteriza por um “agir” em vez de um “pensar” ou “elaborar”. Neste sentido quando reflete a sua experiência como psicanalista – como exemplificou através da apresentação de duas vinhetas de dois casos seguidos em tempos diferentes da sua evolução pessoal – coloca e problematiza tanto a variação histórica a que pertencemos como as suas consequências. Rui Aragão, a propósito de um comentário feito a este artigo, salientou a importância do acto interpretativo, que se tem constituído como uma das ferramentas mestre, facilitando o funcionamento psíquico no paciente permitindo-lhe criar associações e flexibilizar um contacto estimulante e criativo. Também Dominique Scarfone, no seu comentário a este trabalho, salientou que a autora escolhendo a interpretação como o principal foco da sua atenção, nos oferece uma clara e eloquente articulação de um número importante de elementos de psicanálise ligados ao acto de analisar na nossa conjuntura social e cultural. Este interessante artigo, bem como os dois comentários, colocam-nos questões verdadeiramente significantes, de natureza técnica, relativamente às exigências que o trabalho clínico nos apresenta na contemporaneidade.
Nos artigos Teóricos e Clínicos, publicamos um conjunto de trabalhos de diferentes psicanalistas portugueses e estrangeiros, com diferentes modelos teóricos. Carlos Farate apresenta-nos um ensaio – “Entre o Desejo Desconhecido e Conhecimento do (pelo) Amor: O psicanalista como sujeito (interlocutor) e objecto (mediador)” – que mostra as subjectividades do analista e do analisando no processo transferencial, assim como as qualidades dos diferentes elos de ligação da dupla analítica. Apresenta as diferentes questões teóricas que se colocam na relação intersubjectiva e aborda a “falta” como conceito crucial da psicanálise. Também Fred Busch no seu artigo – “Our Vital Profession” – nos mostra o papel vital e básico do psicanalista na recuperação e na ajuda dos pacientes. Mostra também a vitalidade e os desafios do método analítico face às mudanças de paradigma dos últimos quarenta anos que permitiram a expansão de diferentes perspetivas. Maria Antónia Carreiras apresenta, neste número da revista, um artigo – “Do desespero e da Criação” – onde menciona a problemática de criação especialmente a sua função integradora e reparadora. Através da obra poética de Paul Celan aborda o processo criativo como forma de comunicação e de compreensão. Eliana Riberti Nazareth apresenta o artigo – “Quando o Corpo é quem Fala: A importância da contransferência na análise de pacientes com manifestações somáticas” – que mostra, através da ilustração de vinhetas clínicas, algumas reflexões sobre a importância da contransferência como instrumento essencial que permite o acesso aos conflitos pré-verbais ou infra-verbais desses pacientes. Teresa Abreu e Csongor Juhos abordam no seu artigo sobre, – “Vicissitudes da criação da identidade psicanalítica na formação de candidatos” – o percurso, a construção e o crescimento da identidade analítica dos candidatos.
Na secção ligada ao Intercâmbio apresentamos um artigo de Leopold Nosek – “Corpo e Infinito: Notas para uma teoria da Genitalidade” – onde o autor revê o conceito de genitalidade, encarando-o como o único modo da sexualidade em que o desejo não abarca a alteridade.
Neste número da revista apresentamos ainda uma entrevista, amavelmente cedida por Maria do Carmo Sousa Lima e por João Sousa Monteiro, que foi publicada anteriormente em Teaching Meltzer: Modes and Approaches, em 2015, pela Karnac. Nesta entrevista apercebemo-nos da qualidade do pensamento psicanalítico de Meltzer, da sua genial capacidade de representar por palavras e sentimentos a escuta do material clínico dos pacientes e da sua aptidão didática para mostrar aos supervisandos novas formas de abordagem de compreensão do sofrimento humano.
Fazemos, nesta edição da revista, uma evocação à memória do Professor Pedro Luzes, Psicanalista da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, através da publicação da sua última entrevista, feita por Vasco Santos, Vice-Director da RPP.
Para terminar apresentamos, como é habitual, uma recensão de Henrique Testa Vicente e Magda Santos sobre Jimmy P: Psychoterapy of a Plains Indian.
Esperamos que este conjunto de artigos represente um importante contributo para o conhecimento mais aprofundado e uma maior expansão do exercício da Psicanálise.

Artigos Convidados

El Oficio de analista y su caja de herramientas: La interpretation revisitada
Virginia Ungar

Comentário ao texto de Virginia Ungar “El Oficio de analista y su caja de herramientas: La interpretation revisitada”
Rui Aragão Oliveira

Interpretation Beyond Meaning. A brief discussion of Virginia Ungar’s Keynote presentation
Dominique Scarfone

Artigos Teóricos/Clínicos

Entre o Desejo Desconhecido e Conhecimento do (pelo) Amor: O psicanalista como sujeito (interlocutor) e objecto (mediador)
Carlos Farate

Our Vital Profession
Fred Busch

Do Desespero e da Criação
Maria Antónia Carreiras

Quando o Corpo é Quem Fala – A importância da Contratransferência na análise de Pacientes com manifestações somáticas
Eliana Riberti Nazareth

Vicissitudes da Criação da Identidade Psicanalítica na Formação de Candidatos
Teresa Abreu e Csongor Juhos

Intercâmbio

Corpo e Infinito: Notas para uma teoria da Genitalidade
Leopold Nosek

Entrevista

Meltzer Revisitado: Uma Entrevista a Maria do Carmo Sousa Lima
João Sousa Monteiro

Evocação

Uma Conversa Breve com Pedro Luzes
Vasco Santos

Recensão

Jimmy P.: “Psychoterapy of a Plains Indian”
Henrique Testa Vicente e Magda Santos