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O feminino na pintura da Paula Rego

Começo por dizer que não é fácil para mim escrever sobre a pintura da Paula Rego.

A minha experiência quando vejo os seus quadros é poderosa, quase puramente emocional e inconsciente, de tal forma que tenho dificuldade em produzir um discurso verbal sobre isso.

Ao pensar sobre o que queria escrever neste texto, comecei por me lembrar que, numa certa época da minha vida, dizia que não seria capaz de ter um quadro da Paula Rego em casa porque as emoções que me despoletava eram de tal modo intensas que chegava a ser assustador; hoje em dia, teria um prazer imenso em conviver quotidianamente com estas imagens.

O que eu penso que me assustava na altura era a enorme complexidade com que ela consegue retratar o feminino. Nos seus quadros, é inegável o poder das mulheres; ao mesmo tempo, ela própria descreve-se, no filme que o seu filho fez sobre ela (Paula Rego – Histórias e Segredos), como uma mulher passiva, inibida e excessivamente obediente. Como se nos quadros conseguisse revelar, como numa fotografia, o positivo do negativo que ela mostrava aos outros e a si mesma no dia-a-dia.

Nesta revelação, aparecem aspetos muito crus e outros muito subtis, dimensões de força e fragilidade, energia e depressão, muitas vezes uma imensa solidão. Se olharmos para a sua série sobre o aborto, vemos a mulher numa situação de sofrimento, mas simultaneamente em posturas sexuais, como se dor e prazer caminhassem lado a lado. O prazer da relação sexual que deu origem a uma gravidez mistura-se com o sofrimento físico de expelir um embrião que está feito para se agarrar à vida e que não quer separar-se do corpo que lhe garante a sobrevivência. Mas também a dor mental de perder uma parte de si, aquilo que para a mulher, na sua fantasia inconsciente, confirma o seu imenso poder de criar vida a partir do nada.

Seja uma decisão deliberada da mulher ou uma situação médica que a isso obriga, a vivência do aborto implica sempre diversos níveis de sofrimento e um conjunto de emoções bastante complexas, às vezes contraditórias, de perda, alívio, dor, culpa, entre outras. Nos quadros da Paula Rego, todas essas emoções estão patentes, bem como o sentimento de uma solidão atroz, ligada a esta experiência na qual a mulher, por mais acompanhada que esteja, encontra-se sempre profundamente só com o seu corpo e com o feminino dentro dela.

No filme, a artista refere que para si o bebé e o pincel sempre estiveram em conflito. No seu sentir, ser mãe era como brincar às casinhas, ou seja, ser mulher era permanecer num registo infantil. A pintar, sente-se poderosa, capaz, ousada – e associa isso ao masculino, como se o feminino não pudesse comportar também essas dimensões. Mas nos quadros, as suas mulheres são simultaneamente fortes e subjugadas, vítimas e agressoras, crianças e adultas. Como se na pintura, Paula Rego pudesse viver um feminino complexo e multidimensional, que, segundo afirma, não foi capaz de viver na vida.