Modificações do Corpo, Identidade e Disrupção

V Jornada Ibérica Teórico-Clínica de Psicanálise

Lisboa, 7 de Outubro de 2017

O corpo é a entidade primeira na qual assenta a identidade. Como menciona Freud, S. (1923): “o Eu é, primeiro e acima de tudo um Eu corporal”. Nestas jornadas propomos uma reflexão sobre a importância psíquica do corpo. Pretendemos, contudo, uma observação focada no modo como os estados mentais primitivos, caracterizados pela fragmentação e ódio, podem ser agidos através da necessidade de mudança da aparência corporal, entendida como sintoma de um distúrbio narcísico, e nas implicações clínicas destas manifestações.

Serão discutidas as modificações compulsivas da superfície do corpo, tais como as tatuagens, piercings, cirurgias plásticas, transexualidade, o sentimento intenso de feiura, ou as preocupações excessivas com a aparência corporal, numa estreita ligação com os conflitos internos e com a dificuldade de integração do mais básico facto da vida: a impossibilidade de dar nascimento a si próprio. Quando a nossa dependência do outro não pode ser integrada, no sentimento de quem somos, a experiência subjectiva da corporalidade fica invariavelmente comprometida. A mãe, suficientemente desejante ou não-suficentemente desejante, por deficit ou excesso, permanece desse modo inexoravelmente inscrita no corpo e esculpe profundamente o desenvolvimento do self corporal. As fantasias de um corpo remodelado podem funcionar como um imperativo psíquico, que abre um espaço onde o indivíduo acredita que, alterando o seu corpo altera a realidade, libertando-se assim dos traços traumáticos de um objecto invasor. Cria a ilusão de separação e a busca de existência ou engendra a fantasia solipsista de reconstrução da unidade perdida, obtendo a fusão com o objecto-self-corpo ideal. Tais situações, de inscrição inconsciente no corpo, diferenciam-se quer da concretude da patologia somática, quer da distorção psicótica. Esta constatação, levanta questões que desafiam a teoria e a técnica psicanalítica:

O que se entende por self corporal e como o trabalhamos no processo analítico?

Como utilizar a transferência e a contratransferência corporal enquanto fonte primordial na compreensão do estado mental do paciente?

Quais as motivações inconscientes do sujeito excessivamente preocupado com a aparência corporal e como se tornam disruptivas?

Se por um lado, estes pacientes são atraídos por soluções concretas, por outro lado, o seu sofrimento é negado em torno do ideal de perfeição física sobrevalorizado pela sociedade.


Programa
“O corpo como entidade primeira” – Entrevista com Fernando Orduz
“Body and Mind in Conflict?” – Entrevista com Riccardo Lombardi
Comissão Organizadora


Programa

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08h30 – Abertura do secretariado
09h00 – Sessão de abertura

Teatros Psíquicos das Modificações Corporais

Comunicação teórica
09h30 – 09h55 – Jorge Tió y Begoña Vázquez (SEP)
09h55 – 10h20 – Conceição Melo Almeida (SPP)
10h20 – 11h00 – Discussão
Moderador – Maria Luís Borges de Castro (SPP)

11h00 – Intervalo

Comunicação teórica
11h30 – 11h55 – Teresa Flores (NPP)
11h55 – 12h20 – Elsa Duña (APM)
12h20 – 13h00 – Discussão
Moderador – Rossend Camón (SEP)

13h00 – Almoço (buffet no hotel)

Reivindicando o corpo. Reivindicando o self

Caso Clínico
15h00 – 15h30 – Apresentação – Demian Ruvinsky (APM)
15h30 – 15h50 – Comentário – Jorge Bouça (SPP)
15h50 – 16h30 – Discussão
Moderador – Llúcia Viloca (SEP)

16h30 – Intervalo

Caso Clínico
17h00-17h30 – Apresentação – Elsa Couchinho (SPP)
17h30-17h50 – Comentário – Glòria Callicó (SEP)
17h50-18h30 – Discussão
Moderador – José María Erroteta Palacio (APM)

18H30 – Encerramento

21h00 – Jantar (07 Outubro – Inscrição prévia no secretariado)

Sessão IPSO

06 Outubro – 18h30

Este evento é interno, destinando-se apenas a sócios dos organismos envolvidos.

Inscrições

Até 7 de setembro
Membros associados titulares 75€
Membros candidatos 60€
Convidados * 55€
Membros IPSO 45€

Após 7 de setembro
Membros associados titulares 85€
Membros candidatos 70€
Convidados * 65€
Membros IPSO 55€

Pagamento
Incluir identificação para o destinatário
Cheque à ordem de:
Sociedade Portuguesa de Psicanálise
Transferência
IBAN: PT50 0018 0003 4112 7804 0207 1

Localização
Holiday Inn Lisbon – Continental
Rua Laura Alves, 9
1069-169 Lisboa
Tel: 351 210 046 000

“O corpo como entidade primeira” – Entrevista com Fernando Orduz

Fernando Orduz é Psicanalista, Membro Titular da Sociedade Colombiana de Psicanálise de que foi Presidente. Foi também Presidente da Federação de Psicanálise da América Latina. É Mestre em Comunicação e Cultura e Professor na Universidade Javeriana de Bogotá (Faculdade de Artes e Faculdade de Psicología).
Publicou vários artigos, entre outros: “Fragmentos de Amor de Transferencia”, “Mujer Arte y Violencia”, “Alteridad y Mismidad en la Transferencia”, “Divagaciones sobre psicoanalise y ciudad”, “Verguenza, Imagen Corporal y Arte”. Colaborou na publicação de alguns livros e trabalhos de investigação.
Esteve recentemente em Portugal no Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise onde fez uma conferência – Sexualidad : Metáforas Y Heteronimias.

A propósito do tema da V Jornada Ibérica Teórico Clínica de Psicanálise vem falar-nos agora, sobre “O corpo como entidade primeira”. Como lugar onde tudo se apresenta primeiro para depois se re – apresentar na mente.Para Orduz o inconsciente primitivo está aí , no corpo.Ao emergir na civilização, o ser humano começa a alterar e transformar o seu corpo para se diferenciar dos animais e se apropriar dele como algo que é seu , com um sentido. A intervenção sobre o corpo inscreve-se para marcar um ato histórico. As tatuagens, os piercings e as cicatrizes aparecem assim com uma função narrativa que a palavra nem sempre consegue dizer. O corpo é também um espaço de simbolização.

“Body and Mind in Conflict?” – Entrevista com Riccardo Lombardi

Riccardo Lombardi é psicanalista Membro da Sociedade Psicanalítica Italiana.

Tendo por base de filiação as teorias de Bion e de Matte Blanco, para Lombardi o pensamento psicanalítico é um “trabalho aberto” em constante evolução – algo para examinar e questionar. Central para o seu pensamento clínico é a conexão / ou desconexão corpo-mente, que situa num nível arcaico do psiquismo. Lombardi dá muita importância ao transfert somático, experimentado pelo analista e fonte de informação que permite um trabalho de elaboração dos níveis arcaicos do psiquismo do paciente.

Riccardo Lombardi, escreve sobre as exigências físicas e mentais do trabalho clínico e a importância da flexibilidade no trabalho com pacientes psicóticos.

Tem vários artigos publicados e dois livros. Em 2015 pública: Infinito sem Forma: Exploração Clínica de Matte Blanco e Bion e em 2016:  Dissociação Corpo-Mente em Psicanálise: Desenvolvimento após Bion.

CMA : Helplessness is inherent to the human condition. Considering that everything first happens in the body, how we represent it, or do not represent, especially when it has a predominantly traumatic dimension?

RL : Also if it’s true that Helplessness is inherent to human condition, Helplessness is not always experiences for its positive and creative implications by our patients, especially if the mind doesn’t meet the body, or, if you like, doesn’t eclipse the body, with the consequence that no true feeling of humanity seems possible.
An healthy maturational development of the human animal implies an intimate interconnection between mind and body. As the Latins said: Mens sana in corpore sano. We must however recognize the existence of severe forms of dissociations between the body and the mind in our current patients.
The role of the maternal reverie is determining in catalizing the cooling down of the primitive explosive forms of sensoriality and the activation of the first forms of sensory perceptions, which permit the birth of a containing capability. If it’s true that the maternal reverie is crucial, it is also true that the mental activation of mental containment of the primitive sensoriality is internal to the subject herself.
In this context of hypothesis the first forms of traumatism are connected to a scarcity or absence of maternal reverie. Babies can however be very different according their bodily constitutions, so the same lack of maternal reverie can be tollerable for some subjects and toxic for others. From the beginning some kind of responsibility seems involved in the subject’s orientation to accept or refuse frustration.
If the baby’s primitive needs do not meet a maternal reverie, the activation of the first forms of mental sensory registration and contaiment can be hindered. What happens during the primitive stages of development seems however beyond of the resources of historic reconstruction.
It is necessary to work in the present for stimulating self-observation and exploring modes and form of internal functioning. In such a way the psychoanalytic working through can stimulate new forms of self-awareness and mental recognition of the body, of sensations and bodily emotions.
In its most severe form, the tendency to body-mind dissociation can be not completely resolved by psychoanalysis. In these cases the analysand who is able to observe his internal way of functioning can pay attention to promote body-mind connection through some inventive strategic modalities, exactly as a blind man can use different forms of sensoriality to integrate the lack of vision.
When the body is integrated by the mind during a psychoanalysis we are often witness of deep feelings of helplessness and confusion. This evolution must be not confused with a worsening of the analytic process, since these feelings signal the new integration of the mind with the body. It is indeed a catastrophe, but a catastrophe that signals the dawn of a new world. When the psychotic area of the personality, together with lies, struggles against the body-mind integration, the feeling of helplessless inherent to human condition can be impossible almost impossible to achieve.

CMA : Once you said: psychotic patients teaches us psychoanalysis because they are in a deepest level of the unconscious. What’s the mind for you?

RL : When an acute psychosis intervenes, the patient experiences very directly, together with the catastrophe, the most primitive anxieties. The analyst working in these contexts must be at-one-ment with the patient’s experience. The urgent need of facing disorganized emotions stimulate the patient to collaborate with the analyst, especially when the patient, after some psychoanalytic sessions, realizes that he can be understood by the analyst, feeling better. Also in confusional states, the psychotic patient generally speak of his internal condition and is unable to lie, differently from what happens with more evolved patients with psychotic functioning.
The patient in acute crisis, also in deeply confuses states, can be sensible to the analyst’s interventions, provided that the analyst’s interventions are precise enough. When these interventions are not sufficiently precise, they will be inevitably refused by the patient. So the psychotic patient can offer the analyst an important compass on how to reach the most primitive levels. Since this patient will refuse everything that is not in line with his internal experience, the analyst meets an important field of experience for his professional development. If the analyst is able to have open ears, he can adjust his analytic propositions step by step until he can become able reach the patient, using in a determinant way, the patient’s own suggestions as his primary guide.

CC :  In your articles you speak about dissociation body-mind. What’s the difference between dissociation and splitting?

RL : Splitting is connected to more evolved dinamics as those connected to splitting between hatred and love as well as the splitting connected to projective identification. These levels are clearly describe din the Melanie Klein’s works. Dissociation is related to more primitive dynamics in which the body is unreachable by the mind.

GC : Considering your deep interest in both, the body-mind link and psychotic dimension of the personality, how do you look to the issue of body modification and how they can be understood within a psychoanalytic framework, such as the large use of tattoos, piercings, plastic surgeries, etc.

RL : Tattoos and piercings have a different anthropological meaning according to cultures. In analytic patients the role of body modifications should be explored in every single case. What I see more often in analysis is that the tattoos, pierciengs and plastic surgeries offer a way of reinforcing the perception of the bodily self and self confidence, also when the body cannot still be integrated in an armonious way. In some cases tattoos can offer testimony of a provvisional sense of existence, especially if the patient feels herself entrapped in an imaginative ‘bubble’ external to the body self.

GC:  Do you consider that this might reflect a change in psychopathology? Is it the body gaining another presence in communication?

RL : According the psychoanalytic vertex I’ld not speak of pathology in medical terms, but of internal disarmony between two different subsystems: those of the body and the mind within the personality. Our patients change as time and cultures change. The clinical cases of body-mind dissociations are, in my view, a new challenge for the analysts: they require new conceptual hypotheses that could help us in approaching the most difficult cases.

GC :One other issue that we will try to reflect upon is the body transformation related to psychossexuality. Could you share your thoughts on the subject?

RL : The role of sex and gender are significantly influenced by the changing of culture, too, so they change in relation to time and different environments. The exploration of the patient’s modes and forms of internal functioning, introduced by Bion in psychoanalysis, offer the possibility of exploring the different meanings and values that psychosexuality, as well as masculinity and feminility, have in each subject. Masculinity and femminility are also influenced by the personal way in which the subject organizes his/ her Oedipal area.
Sometimes the body transformations can correspond to an effort, more or less realistic, of re-arranging a failure in the body-mind relation or, at more evolved levels, within the Oedipal internal theater, offering new resources when the personal survival is in danger. It is also true that people who had experienced a personal psychoanalysis often show a more realistic appreciation of the body and show good resources of rearranging their personality through mental and imaginative instruments, protecting themselves from seeking an omnipotent solution in potentially dangerous surgeries.

CMA : Can you speak about body transference and countertransference? How useful as an instrument with those patients that symbolize  life in the body as a canvas?

RL : The transference onto the body can help the patient to give concrete substance to a body whose existence is sistematically denied. This happens also in those psychotic conditions which deny the body, becoming dangerously wounded by external gazes or transparent to external recognition. The personality growth involves not only minding the body but also to become able to maintain the concreteness of the body and the weight of bodily sensations.

Working with these patients, clinical experience shows how the analysts are often called to experience very directly their own fisicality. In other words this level of working through fosters the body-mind conflict within the analyst. If the analyst is too litterally identified with her mind, the analyst risks to consider perverse and regressive every sign connected to the body, so the analytic process can suffer of dangerous impasses. Only when the analyst is able to recognize more realistically the pressure and existence of his body, the patient can be helped to find the way to discover and meet his own body.

The most frequent misunderstanding is the tendency to consider the patient perverse when some bodily issues come to the foreground in analysis. The so called ‘bodily countertransference’ should however be considered a normal component of the analytic process when this primitive level of functioning are involved.


CMA – Conceição Melo Almeida; CC – Carla Cruz; GC – Guilherme Canta
Carla Cruz, Eugénia Soares e Rita Gameiro pesquisaram o pensamento de Riccardo Lombardi

Comissão organizadora

Conceição Melo Almeida (Presidente)
Carla Cruz
Eugénia Soares
Guilherme Canta
Maria Jorge de Morais
Rita Gameiro