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AS ÁRVORES MORREM DE PÉ – Homenagem póstuma a Álvaro de Carvalho

Morreu um homem bom. Médico, Psiquiatra, Diretor do Programa Nacional para a Saúde Mental, formado na (e pela) Psicanálise. Nome de árvore, o Álvaro de Carvalho era um homem vertical, um humanista e uma excelente pessoa.

Nosso colega na SPP conheci-o melhor nestes últimos anos, na Direção-Geral de Saúde, onde tenho sido sua Assessora para a Infância e Adolescência desde 2012. Tive esse privilégio de privar com ele, acompanhando-o nas suas rotinas, observando-o nas suas batalhas, aprendendo com os seus conhecimentos teóricos, práticos, mas especialmente de vida, daquilo que é a realidade da saúde mental, na sua história, nacional e internacional, na sua relação com os poderes políticos, e o seu lugar na área da saúde e nas suas interfaces.

Sempre aberto a novas ideias, senti-me ouvida e respeitada, incentivada a ser criativa, apoiada nas dificuldades do caminho, criticada, reassegurada e orientada quando as pedras do mesmo me questionavam.

Afável, disponível, o Álvaro era estimado por todos. Tinha uma presença solar, era daquelas pessoas que emanava luz e calor. Galanteador, era o rumor de risos femininos no edifício labiríntico da DGS que, normalmente, fazia anunciar a sua chegada. Vinha da terra dos dinossauros mas mantinha no olhar uma alegria e no seu espírito uma jovialidade que o tornavam um homem atual e traçava o seu rumo inspirado pela utopia do respeito por todos, com uma determinação e uma inspiração cativantes e contagiantes.

Recordo viajar com ele por esse país fora, no Renault Clio do serviço, pequeno demais para as suas pernas (e para as suas metas), conduzido pelo leal motorista cujo nome lhe denunciava a alma (o Sr. Valente). De alguma forma foi-se impondo na minha mente a imagem do Dom Quixote (e Sancho Pança), nas suas demandas, nas suas lutas contra a incompreensão e contra o conformismo, em defesa dos mais vulneráveis e invisíveis, guiado pelo sonho e pelo valor da justiça.

De uma verticalidade e generosidade extremas, vejo no Álvaro um cavaleiro dos nossos tempos, um homem fiel aos seus princípios, leal aos seus amigos, movido pela defesa dos seus objetivos e ideais. Mas, ao mesmo tempo, conhecedor do inconsciente, capaz de (o) escutar, identificando conflitos e defesas, podendo conter as angústias e ajudar a re-significar as experiências.

Morreu um homem bom. Foi velado num dia triste de Janeiro, em que o céu chorou ininterruptamente. E foi sepultado na sua terra natal, pequena vila cujo nome faz rima com amanhã. O caminho ascendente, estreito e labiríntico entre casas e rostos rústicos, levaram-nos à sua última morada: a Igreja do Castelo, destacando-se verticalmente no horizonte, estrutura sólida, de porte majestoso mas sóbrio, combinando o estilo gótico com um interior “franciscano”, simples, mas verdadeiro.

As árvores morrem de pé. E as pessoas que amamos vivem dentro de nós.

Imagem: António Pedro Ferreira (Jornal Expresso)